Relatórios de Missão

Relatório da primeira missão de promoção dos direitos humanos efectuada à república democrática de São Tomé e Príncipe 1 - 4 de outubro de 2019

Relatório do Missão de Promoção efectuada a República Democrática de São Tomé e Príncipe_ 1 - 4 de Outubro De 2019.pdf
AFRICAN UNION UNION AFRICAINE UNIÃO AFRICANA African Commission on Human & Peoples’ Rights Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos 31 Bijilo Annex Layout, Kombo North District, Western Region, P. O. Box 673, Banjul, The Gambia Tel: (220) 4410505 / 4410506; Fax: (220) 4410504 E-mail: au-banjul@achpr.org; Web www.achpr.org RELATÓRIO DA PRIMEIRA MISSÃO DE PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EFECTUADA À REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE 1 - 4 de Outubro de 2019 1
ÍNDICE ÍNDICE…...…………………………………………………………………………2 NOTA AOS LEITORES............................................................................................. 6 AGRADECIMENTOS................................................................................................ 7 RESUMO ANALITICO......................................................................................... 8 I.INTRODUÇÃO…...………………………………………………………………………. …….11 PRIMEIRA PARTE ............................................................................................... 11 I.TERMOS DE REFERÊNCIA………………………………………………………………………...12 II.PERFIL DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE SÃO TOMÉ ........................... 14 A. Visão geral do perfil histórico, geográfico, demográfico, económico e internacional de São Tomé e Príncipe ................................................................. 14 B. Visão geral da forma de Governo e administração de São Tomé e Príncipe..... 15 C. Quadro jurídico para a promoção e protecção dos Direitos Humanos………………16 SEGUNDA PARTE…………………………………………………………………………………. 18 I.METODOLOGIA E CONDUÇÃO DA MISSÃO........................................ 18 II.REUNIÕES E OUTRAS ACTIVIDADES DA DELEGAÇÃO DA COMISSÃO…..18 A. As reuniões com os actores estatais ………………….18 B. As reuniões com os actores não-estatais ………… 20 C. Visitas a locais relevantes para os direitos humanos……………………………………………………………………………………….35 D. Conferência de imprensa........................................................................................ 41 TERCEIRA PARTE ……………………………………………………………………...................42 OBSERVAÇÕES E ANÁLISE DA SITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EM SÃO TOMÉ E PRINCIPE………….……………………………………………………………………….42 I.EVOLUÇÃO POSITIVA DA SITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EM SÃO TOMÉ E PRINCIPE……….……………………………………….………………………………42 Dinâmica e vontade políticas e reformas jurídicas................................................. 42 2
Ratificação dos instrumentos internacionais de direitos humanos e cooperação com a Comissão....................................................................................................... 43 Instituição Nacional de Direitos Justiça…………………………….44 Humanos/ Gabinete do Provedor de Justiça.............................................................................................................. 44 Polícia.................................................................................................................. 45 Prisões................................................................................................................. 45 Liberdade de expressão, acesso à informação e comunicação social...................................................... 46 Acção da sociedade civil e cooperação entre os actores dos direitos humanos.......................... 46 Mulheres, Crianças, Deficientes, Idosos e Jovens.............................. 47 Esforços no Sector do Turismo............................................................................ 49 Saúde e Luta contra o HIV……………………………………………………………………………49 Direitos económicos, sociais e culturais…………………………………………………………….50 I. ÁREAS DE PREOCUPAÇÃO………………………………………..……………..50 Recursos financeiros, humanos e infraestruturas............................................... 51 O quadro normativo geral e a dinâmica entre os poderes.......................................... 51 Ratificação dos instrumentos internacionais de direitos humanos e cooperação com a Comissão………………………………………………………………………………………….51 Barreiras culturais e tradicionais.................................................................... 52 INDH………………………………………………………………………………………………...….52 Justiça.................................................................................................................. 52 Polícia.................................................................................................................. 53 Prisões................................................................................................................. 53 Liberdade de expressão, acesso à informação e comunicação social...................................................... 54 Mulheres, Crianças, Deficientes, Idosos e Jovens.............................. 54 Direitos económicos, sociais e culturais…………………………………………………………….55 3
Desenvolvimento do turístico................................................................................. 55 QUARTA PARTE RECOMENDAÇÕES........................................................ 56 Ao Governo……………………………………………….…………………….56 Recursos financeiros, humanos e infraestruturas............................................... 56 O quadro normativo geral e a dinâmica entre os poderes.......................................... 56 Ratificação dos instrumentos internacionais de direitos humanos e cooperação com a Comissão………………………………………………………………………………………….57 INDH................................................................................................................... 57 Justiça.................................................................................................................. 58 Polícia.................................................................................................................... 58 Prisões................................................................................................................. 59 Liberdade de expressão, acesso à informação e comunicação social...................................................... 60 Mulheres............................................................................................................... 60 Crianças e Jovens.................................................................................................. 61 Pessoas com deficiência, pessoas idosas..................................................................... 61 Direitos económicos, sociais e culturais……………………………………………………………61 Desenvolvimento do turístico................................................................................. 62 À Sociedade Civil............................................................................... 62 À Comunidade Internacional e aos parceiros................................... 62 4
NOTA AOS LEITORES Este relatório foi redigido no final da missão em 2019, mas por razões técnicas não pôde ser adoptado epublicado pela Comissão. Deve recordar-se que a missão em questão é a última realizada pela Comissão antes da suspensão de todas as actividades presenciais a nível da União Africana na sequência da crise da Covid-19. Assim, algumas das realidades e dados contidos no referido relatório podem não reflectir a situação actual e devem ser vistos estritamente nesse contexto prevalecente na altura da missão da Comissão em Outubro de 2019. A Comissão está disposta e considera necessário colaborar com a República de São Tomé a fim de realizar uma nova missão de promoção o mais rapidamente possível, a fim de ter uma leitura actualizada da realidade da situação dos direitos humanos neste país, que é parte da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. 5
AGRADECIMENTOS A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (a Comissão) expressa a sua gratidão ao Governo de São Tomé e Príncipe por acolher esta primeira missão de promoção dos direitos humanos levada a cabo por uma delegação da Comissão de 1 a 4 de Outubro de 2019. A Comissão expressa a sua sincera gratidão às mais altas autoridades do país por terem fornecido à delegação as instalações e o pessoal necessários para a boa condução da missão. Da mesma forma, expressa também a sua gratidão a Sua Excelência a Senhora Ivete Santos Lima Correia, Ministra da Justiça e dos Direitos Humanos, pelo seu envolvimento pessoal na organização das várias reuniões que muito contribuíram para o sucesso da missão. Além disso, a Comissão expressa a sua gratidão a Senhora Lubilhana Andrade, Directora do Gabinete do Ministro da Justiça, ao Sr. Gregório Santiago, responsável pela Direcção dos Direitos Humanos no Ministério da Justiça, e à Senhora Katia Cassandra do Ministério da Justiça, pela sua assistência logística e outras dispensadas à delegação durante toda a sua estadia, especialmente na organização prática das várias reuniões e actividades. Por último, a Comissão gostaria de agradecer aos intérpretes Cheila Fernandes das Neves e Leandro Lavres da Costa que permitiram à delegação o intercâmbio com todas as partes interessadas com as quais se reuniu sem ser prejudicada pela questão linguística num país em que o português é a língua oficial. 6
RESUMO ANALÍTICO Na sequência da autorização do Governo de São Tomé e Príncipe, e em conformidade com o parágrafo 1 do artigo 45.º da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (a Carta), uma delegação da Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos (a Comissão) empreendeu uma missão de promoção dos direitos humanos em São Tomé e Príncipe (São Tomé e Príncipe) de 1 a 4 de Outubro de 2019. A delegação era composta pela Ilustre Comissária Maria Teresa Manuela, Comissária Relatora para a situação dos Direitos Humanos na República Democrática de São Tomé e Príncipe; e Relatora Especial para as Prisões, Condições de Detenção e Policiamento em África (Chefe da Delegação), e pela Ilustre Comissária Hatem Essaiem; Presidente do Comité para a Prevenção da Tortura em África. A delegação foi assistida por dois (2) juristas (Sr. Bruno Menzan e Sra. Tatiana Sikunu) e pelo Sr. Frederico Tamakloe, responsável pelas Finanças, todos do Secretariado da Comissão. Os objectivos da missão eram, entre outros, promover a Carta Africana e todos os outros instrumentos regionais e internacionais de direitos humanos ratificados pelo país; reforçar a relação entre a Comissão e a República de São Tomé e Príncipe; estabelecer um diálogo com as partes interessadas relevantes, trocar opiniões sobre as formas e meios de reforçar o gozo dos direitos humanos no país e recolher informações sobre questões de direitos humanos de particular interesse para a Comissão; e encorajar o Governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe a apresentar relatórios iniciais/periódicos pendentes e a participar regularmente nas actividades da Comissão, incluindo as sessões. Tendo em conta as várias reuniões, intercâmbios e discussões com actores estatais e não estatais envolvidos na promoção e protecção dos direitos humanos e dos povos em São Tomé e Príncipe, bem como visitas a duas prisões, a delegação pôde observar a relativa estabilidade prevalecente no país no momento da sua visita. A Delegação congratula o Governo de São Tomé e Príncipe pela sua manifesta vontade política e seu empenho em prol do gozo efectivo dos direitos humanos. Esta vontade reflecte-se no tom calmo e nas acções fortes das mais altas autoridades do país para instalar um clima de país social e princípios democráticos no debate nacional e na vida quotidiana do país. 7
Assim, a Delegação regista como progresso a ratificação de vários instrumentos internacionais e regionais desde 2018 sob o impulso de parceiros internacionais como a União Africana e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; a apresentação de dois relatórios no âmbito da Revisão Periódica Universal e a conclusão do segundo relatório no âmbito da Carta das Nações Unidas para os Direitos da Criança, que será examinada no final de 2020; os esforços holísticos para combater a violência doméstica e baseada no género e o abuso de menores, incluindo a introdução de legislação adequada, a criação de estruturas e instituições para este fim, incluindo o centro de aconselhamento sobre violência doméstica, campanhas de sensibilização, incluindo a campanha "laço verde" contra o abuso de menores, violência doméstica, gravidez precoce, consumo de drogas e outros crimes baseados no género, etc. Os esforços na área da saúde e educação, incluindo os relacionados com o VIH-SIDA com uma taxa de prevalência relativamente baixa e em declínio, a disponibilidade e livre acesso aos medicamentos anti-retrovirais, a elevada e crescente taxa de matrículas escolares; e a aceitação pelos intervenientes, incluindo os actores estatais, dos desafios dos direitos humanos e a sua determinação em trabalhar para os mesmos, incluindo a apresentação de relatórios periódicos à Comissão e a participação nas suas actividades, conforme apropriado. Apesar destes aspectos positivos, a Delegação permanece preocupada com os muitos desafios persistentes, incluindo a indisponibilidade, insuficiência e escassez de recursos financeiros necessários para as políticas económicas, sociais e de desenvolvimento em todos os sectores da vida do país e da sua população em São Tomé e Príncipe, o que paralisa todas as iniciativas e outros projectos ou programas sobre direitos humanos ou que deveriam ter um impacto positivo sobre os mesmos; a não apresentação por São Tomé e Príncipe dos seus relatórios iniciais e periódicos à Comissão desde a sua adesão à Carta; a não participação de São Tomé e Príncipe nas actividades da Comissão, incluindo as suas sessões ordinárias; a elevada prevalência de abuso de menores, violência doméstica, gravidezes precoces, consumo de drogas e outros crimes baseados no género; apesar dos esforços empreendidos pelas partes interessadas; a fragilidade do sistema judicial com falhas institucionais e normativas, e a falta de progressos na reforma iniciada para o melhorar; e a insuficiência de infraestruturas socioeconómicas que permitam à população desfrutar plenamente dos seus direitos humanos, tais como o direito à justiça, à saúde e outros, especialmente para os mais vulneráveis que enfrentam um problema de acessibilidade a estas infraestruturas que estão demasiadas vezes longe do seu local de residência. Consequentemente, a Comissão faz as seguintes recomendações-chave que abordam as principais questões de direitos humanos no país: i. Todos os esforços envidados e todas as iniciativas que visam o melhor gozo e protecção dos direitos humanos devem ser prosseguidos e 8
implementados o mais rapidamente possível; ii. A Delegação insta o Governo a persistir e acentuar a luta contra a violência doméstica, o abuso de menores, o fenómeno do alcoolismo e da droga, bem como todos os outros factos nefastos para os direitos humanos das populações de São Tomé e Príncipe relacionados com o turismo, cujos benefícios devem ser efectivamente orientados para a melhoria das condições de vida das populações através da criação das infraestruturas socioeconómicas necessárias; iii. O Governo deve estabelecer de forma resoluta um quadro normativo para abordar as problemáticas dos direitos humanos encontradas em São Tomé e Príncipe, bem como empreender uma reforma holística do seu sistema judicial, incluindo as suas leis obsoletas da era colonial, a fim de as adaptar às realidades do momento, e às condições de detenção; iv. O Governo deve apresentar os relatórios iniciais e periódicos de São Tomé e Príncipe pendentes, em conformidade com o artigo 62.º da Carta e o artigo 26.º do Protocolo sobre os Direitos das Mulheres em África; v. A Delegação apela igualmente às organizações da sociedade civil para que continuem a apoiar a promoção e protecção dos direitos humanos em São Tomé e Príncipe, utilizando todas as plataformas e mecanismos disponíveis, incluindo a colaboração com a Comissão. A Delegação apela à comunidade internacional e aos parceiros internacionais, por um lado, para que ajudem o Governo a mobilizar todos os meios financeiros, humanos, técnicos e outros meios logísticos necessários para levar a cabo o processo de reforma previsto, e de outro lado, que continuem a apoiar os esforços em curso para garantir a promoção e a protecção dos direitos e o desenvolvimento em São Tomé e Príncipe 9
INTRODUÇÃO 1. A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (Carta Africana), adoptada a 21 de Junho de 1981 pela Conferência de Chefes de Estado e de Governo em Nairobi, Quénia, entrou em vigor a 21 de Outubro de 1986. O artigo 30.º estabelece a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (a Comissão), tornando-a o principal órgão da União Africana (UA) para a promoção e protecção dos direitos humanos. São Tomé e Príncipe é um Estado Parte da Carta Africana, tendo-a ratificado a 23 de Maio de 1986. 2. Nos termos do artigo 45.º da Carta Africana, a Comissão está mandatada para promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais consagrados na Carta, assegurar a sua protecção e monitorizar a sua implementação, interpretar as suas disposições e prestar aconselhamento jurídico a pedido da Conferência de Chefes de Estado e de Governo. Além disso, a Comissão é responsável por reunir documentos, realizar estudos e investigações sobre os problemas africanos no domínio dos direitos humanos e dos povos, organizar seminários, simpósios e conferências, divulgar informações, encorajar as instituições nacionais e locais que lidam com os direitos humanos e dos povos e, quando apropriado, dar pareceres ou formular recomendações aos governos. 3. É no quadro da execução do mandato da Comissão para a promoção dos direitos humanos, que uma delegação da Comissão composta pela ilustre Comissária Maria Teresa Manuela, Comissária relatora para a situação dos direitos humanos na República Democrática de São Tomé e Príncipe e Relatora Especial para as Prisões, Condições de Detenção e Policiamento em África (Chefe da Delegação), pela ilustre Comissária Hatem Essaiem; Presidente do Comité para a Prevenção da Tortura em África, assistida por dois (2) juristas (Sr. Bruno Menzan e Sra. Tatiana Bongo) e o Sr. Frederico Tamakloe, responsável financeiro, todos do Secretariado da Comissão; efectuaram uma missão de promoção dos direitos humanos em São Tomé e Príncipe de 1 a 4 de Outubro de 2019. 4. Nesta ocasião, a delegação da Comissão reuniu informações específicas sobre a situação dos direitos humanos em São Tomé e Príncipe, divulgou as convenções da União 10
Africana e os documentos da Comissão, bem como todos os outros instrumentos internacionais relevantes em matéria de direitos humanos. Além disso, a Comissão reforçou a sua visibilidade e sensibilizou todos os actores estatais e não estatais para o seu trabalho e seus mecanismos subsidiários. PRIMEIRA PARTE I. TERMOS DE REFERÊNCIA 5. Os objectivos da missão foram os seguintes: 11
▪ Promover a Carta Africana, o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os Direitos das Mulheres em África (Protocolo de Maputo) e outros instrumentos jurídicos regionais sobre direitos humanos; ▪ Reforçar as relações entre a Comissão e as autoridades da República Democrática de São Tomé e Príncipe no domínio da promoção e protecção dos direitos consagrados na Carta Africana e noutros instrumentos jurídicos nacionais, regionais e universais relevantes; ▪ Trocar pontos de vista e partilhar experiências com o Governo de São Tomé e Príncipe, bem como com outros actores que trabalham na área dos direitos humanos no país, sobre estratégias para melhorar o gozo destes direitos; ▪ Engajar-se em diálogo com o Governo de São Tomé e Príncipe sobre as medidas legislativas e outras medidas tomadas para dar pleno efeito às disposições da Carta Africana, do Protocolo de Maputo e de outros instrumentos devidamente ratificados; ▪ Recolher informações sobre a situação dos defensores dos direitos humanos na República Democrática de São Tomé e Príncipe e discutir com as partes interessadas os problemas que impedem o gozo efectivo dos direitos humanos dos defensores dos direitos humanos; ▪ Advogar em prol da ratificação de instrumentos jurídicos regionais e internacionais de direitos humanos que ainda não tenham sido ratificados pela República Democrática de São Tomé e Príncipe; ▪ Procurar obter informações sobre questões de direitos humanos de particular interesse para a Comissão, nomeadamente a situação das prisões e as condições de detenção; a situação dos direitos humanos das mulheres e crianças; refugiados, migrantes e pessoas deslocadas internamente no seu próprio pais; liberdade de expressão, associação e reunião; prevenção da tortura; a situação dos defensores dos direitos humanos; independência do poder judiciário; indústrias extractivas; idosos e pessoas com deficiência; populações/comunidades indígenas; e pessoas que vivem com VIH/SIDA; ▪ Compreender o nível de gozo dos direitos civis e políticos, bem como os direitos económicos, sociais e culturais da população da República Democrática de São Tomé e Príncipe, bem como as medidas tomadas pelo Governo para implementar esta categoria 12
de direitos humanos; ▪ Visitar as prisões na República Democrática de São Tomé e Príncipe para avaliar até que ponto as condições de detenção cumprem as normas regionais e internacionais, e entrevistar responsáveis da administração penitenciária e outras partes interessadas sobre todos as questões relacionadas com a detenção e o trabalho da Comissão sobre este tema; ▪ Reunir-se com os actores relevantes dos direitos humanos e discutir os seus programas, a avaliação da situação dos direitos humanos no país e os desafios que enfrentam na realização das suas actividades; ▪ Sensibilizar o Governo no que diz respeito às actividades da Comissão na República Democrática de São Tomé e Príncipe, em particular os departamentos e as organizações da sociedade civil (OSC); e ▪ Incentivar o Governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe a apresentar os relatórios iniciais/periódicos pendentes e a participar regularmente nas actividades da Comissão, incluindo nas sessões. II. PERFIL DA REPÚBLICA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE A. Visão geral do perfil histórico, geográfico, demográfico, económico e internacional de São Tomé e Príncipe 6. São Tomé e Príncipe é um arquipélago composto por duas ilhas. Situa-se no Oceano Atlântico, mais concretamente no Golfo da Guiné, a uma distância de aproximadamente 300 km da costa da África Ocidental. A Ilha de São Tomé é atravessada precisamente pela linha do Equador. 7. A sua área total é de 1001 km², o que faz de São Tomé e Príncipe um dos mais pequenos estados do mundo. A maior ilha, São Tomé, cobre 864 km². A capital, com o nome da ilha, está localizada no nordeste e alberga mais de um terço da população total. As principais cidades são: São Tomé, Santo Amaro, Neves, Santana e Santo António. 13
8. A língua oficial é o português; o francês é a primeira língua estrangeira falada, seguido do inglês. A população também fala Fang (língua bantu). 9. A moeda utilizada é o Dobra (1 EUR = 23.520.5STD a 04/09/2019). 10. A população é de 199 940 (2017) em grande parte concentrada na capital; com uma densidade: 201,57 habitantes / km², taxa de crescimento natural 2,9%. A esperança de vida é de cerca de 67 anos (2017) e a taxa de alfabetização : 90,10% (2017, fonte: Censo Populacional). Religião(ões): Catolicismo (mais de 80%), Protestantismo, Islamismo. Índice de Desenvolvimento Humano: 142º de 188 países (PNUD, 2016). 11. Grande dependência do financiamento externo, São Tomé e Príncipe capta a maior parte do seu programa de investimento público da ajuda internacional. A economia santomense é dominada pelos sectores da agricultura e da pesca, que proporcionam a maioria dos empregos. Estes sectores (cacau, café, pimenta), herdados da colonização portuguesa, têm um desempenho globalmente inferior e o cacau é o principal produto de exportação. Representa menos de 3% do PIB. 12. O turismo, que se desenvolve progressivamente graças a investimentos essencialmente de Portugal (grupo Pestana) e da África do Sul concentrados na ilha de Príncipe (grupo HBD), é também hoje um dos motores de desenvolvimento do arquipélago que possui verdadeiros trunfos. 13. O crescimento estimado de 3,9% em 2017 é inferior às projecções iniciais do FMI, que apontam para 4% em 2018 e depois para 5,5% a médio prazo, graças ao desenvolvimento em curso dos sectores do turismo e da agricultura e a um aumento esperado dos investimentos externos. 14. Em 2010, de acordo com os dados recolhidos pelo Instituto Nacional de Estatística (Inquérito ao Orçamento Familiar, 2010), 70,1% da população de São Tomé e Príncipe era pobre de acordo com a norma internacional de rendimento de 1,5 dólares, ou 30 071 dobras, por dia. 15. As mulheres são mais afectadas do que os homens. A falta de oportunidades no mercado de trabalho é a principal causa da pobreza. No mercado de trabalho, 62% da população 14
empregada ou à procura activa de emprego é do sexo masculino e 38% é do sexo feminino. B. Visão geral da forma de governo e administração em São Tomé e Príncipe 16. São Tomé e Príncipe é uma república dividida em duas províncias que são São Tomé de uma parte e Príncipe da outra. 17. A sua segunda constituição entrou em vigor a 20 de Setembro de 1990 e foi actualizada com as alterações introduzidas pela Lei n.º 1/2003 de 29 de Janeiro. Consagra os princípios fundamentais de um Estado de direito democrático e estabelece vários órgãos de soberania nacional (a Presidência da República, a Assembleia Nacional, o Governo e os Tribunais) que são o resultado da vontade soberana do povo, livremente expressa nas eleições. 18. São Tomé e Príncipe está dividida em duas regiões; as duas províncias de São Tomé e Príncipe estão divididas em sete distritos. Seis estão localizados na ilha de São Tomé (província de São Tomé) e um em Príncipe (província de Príncipe): Água Grande, Cantagalo, Caué, Lembá, Lobata, Mé Zóchi e Pagué. 19. Segundo a Constituição, o Presidente é o Chefe de Estado, que exerce o poder executivo e é o Comandante Supremo das Forças Armadas de São Tomé e Príncipe. O Presidente eleito cumpre um mandato de cinco anos e pode ser elegível para um segundo mandato consecutivo. As últimas eleições presidenciais antes da missão em análise realizaram-se em 2016. 20. O Primeiro-Ministro é o chefe do governo, mas o poder permanece altamente centralizado no Presidente da República, com a Constituição a conferir fortes poderes de nomeação ao Presidente. O Presidente também tem o poder de nomear e demitir o Procurador-Geral da República sob proposta do governo. 21. O Presidente tem um órgão consultivo chamado Conselho da República, a que preside. Este órgão aconselha o Presidente em situações detalhadas. 15
22. O Primeiro-Ministro é responsável perante o Presidente e, no que diz respeito à responsabilidade política do governo, é também responsável perante a Assembleia Nacional. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente após ouvir os partidos com representação na Assembleia Nacional e de acordo com os resultados das eleições. 23. O Conselho de Ministros é constituído por todos os ministros. A estrutura, composição e as actividades do Conselho de Ministros estão definidas na Constituição. O Conselho é composto pelo Vice-Presidente, os Ministros de Estado e os Ministros. C. Quadro jurídico para a promoção e protecção dos direitos humanos 24. São Tomé e Príncipe é parte dos seguintes principais instrumentos de direitos humanos. Instrumentos jurídicos africanos: • Acto Constitutivo da União Africana; • Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos; Instrumentos jurídicos internacionais: • Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos; • Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes; • Segundo Protocolo Facultativo ao Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos com vista à abolição da pena de morte; • Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres; • Convenção sobre os Direitos da Criança; • Convenção sobre os Direitos das Pessoas portadoras de Deficiência; • Convenção Internacional para a Eliminação e Repressão do Crime do Apartheid; • Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial; • Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais; • Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e dos Membros das suas Famílias; e • Convenção sobre os Direitos da Criança. 16
Quadro jurídico nacional para a promoção e protecção dos direitos humanos • Na sua 2ª parte intitulada “Direitos Fundamentais e Ordem Social”, a Constituição de São Tomé e Príncipe de 1990, revista em 2003, constitui o pilar do quadro jurídico nacional para a promoção e protecção dos direitos humanos no país. • É complementado por um conjunto de leis que foram mencionadas de tempos a tempos durante as entrevistas com as partes interessadas reunidas durante a missão. Foi impossível para a delegação obter detalhes precisos sobre estas referidas leis e, portanto, não serão aqui enumeradas. 17
PRIMEIRA PARTE I. METODOLOGIA E CONDUÇÃO DA MISSÃO 25. A missão de promoção a São Tomé e Príncipe foi conduzida através de interacções e reuniões com as mais altas autoridades e diferentes actores envolvidos na promoção e protecção dos direitos humanos. A delegação também visitou prisões. Em cada uma dessas reuniões e durante a visita, a delegação fez uma breve apresentação da Comissão, descrevendo a sua organização, composição, seu mandato, funcionamento e os seus mecanismos subsidiários. Também apresentou os objectivos da missão e concentrou-se na partilha das melhores práticas em áreas de interesse para a missão. 26. Assim, discutiu-se em profundidade a situação dos direitos humanos em São Tomé e Príncipe com várias partes interessadas que partilharam os seus pontos de vista e análise das conquistas, desafios e perspectivas de evolução relativamente à situação actual. II. REUNIÕES E OUTRAS ACTIVIDADES DA DELEGAÇÃO DA COMISSÃO 27. A fim de apresentar uma descrição lógica das reuniões e actividades da delegação, foi adoptada no presente relatório uma abordagem cronológica. 28. Não obstante, as entidades com quem a delegação se reuniu foram agrupadas por categorias e separadas das visitas aos locais. A. As reuniões com os actores estatais a) As autoridades ministeriais e da Presidência 1. Ministro da Defesa, em representação do Ministro dos Negócios Estrangeiros 29. A delegação, através da voz da Comissária Manuela, apresentou-se primeiro, depois agradeceu ao Governo por ter aceitado esta primeira missão de promoção, e de seguida deu uma visão geral da Comissão, e subsequentemente delineou os termos de referência 18
da missão. A Comissária Manuela insistiu especialmente na não participação de São Tomé nas actividades da Comissão, o que constitui um verdadeiro obstáculo ao mandato da Comissão em relação ao país. 30. O Ministro da Defesa, Sr. Óscar Sousa, na sua qualidade de representante do Ministro dos Negócios Estrangeiros (que estava fora do país no momento da visita), deu as boasvindas à delegação e indicou a vontade do país para cooperar com a Comissão nesta missão, mas também, e sobretudo, mais além e em relação ao mandato de promoção e protecção dos direitos humanos por parte da referida instituição. 31. O Sr. Sousa registou que a constatação da Comissária Manuela sobre a ausência de interacção do seu país com a Comissão, conforme prevista na Carta, estava correcta. Assim, enumerou outras problemáticas de direitos humanos no seu país para que a Comissão tomasse nota e ajudasse a abordar de acordo com o seu mandato. 32. Estas problemáticas são a crise a nível do poder judiciário e sobretudo a nível do Supremo Tribunal. Segundo ele, a justiça deve ser independente e este não parece ser o caso no seu país, na medida em que, utilizando a comparação com outros países, o presidente do Supremo Tribunal queixou-se da falta de realidade da separação de poderes. 33. Outra questão de direitos humanos preocupante é a situação da prisão, que ele disse não ser boa, por exemplo, a não separação das categorias de presos. 34. O Sr. Sousa citou também a prevalência da violência doméstica, e a falta de infraestruturas, o distanciamento da justiça em relação à população (é necessário viajar para a capital para ter acesso à justiça), bem como outras problemáticas de direitos humanos no seu país. O Sr. Sousa informou a delegação que enquanto a Polícia Judiciária e a prisão estão sob a tutela do Ministério da Justiça, a força policial está sob a tutela do Ministério da Defesa. A este respeito, indicou que a Força Policial está espalhada por todo o país e que o rácio de homens para mulheres dentro da Força é largamente a favor dos homens, uma vez que as mulheres representam apenas 1% dos efectivos. 35. A delegação informou o Ministro de que a Comissão pode contribuir com os seus conhecimentos especializados para alguns destes desafios em matéria de direitos humanos. Estes incluem a possibilidade de formação em direitos humanos para a Polícia e a utilização do Protocolo de Maputo para abordar a questão da violência doméstica. 36. A delegação convidou o país a ratificar os instrumentos de direitos humanos ainda não ratificados1, a apresentar os seus relatórios periódicos, nenhum dos quais jamais foi apresentado desde que o país se tornou parte da Carta. 1 Estes são principalmente: a Convenção para a Protecção de Todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado; a Convenção Internacional sobre a Protecção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e Membros das suas Famílias; o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao envolvimento de 19
37. As duas partes levantaram também a problemática da indisponibilidade dos documentos da União Africana em português, especialmente os da Comissão. 2. Ministério da Justiça, Administração Pública e dos Direitos Humanos 38. As discussões a nível deste Ministério tiveram lugar em duas fases sucessivas, na medida em que a reunião com a Direcção responsável pelos Direitos Humanos no seio do referido Ministério precedeu a reunião com a própria Ministra da Justiça. i. Direcção responsável pelos Direitos Humanos no Ministério da Justiça 39. As discussões aqui centraram-se nas razões da ausência de São Tomé das actividades da Comissão e da não apresentação de relatórios periódicos por parte de São Tomé, em conformidade com a sua obrigação nos termos do artigo 62.º da Carta. 40. O Sr. Gregório Santiago, Director responsável pelos Direitos Humanos indicou que desde 2011, São Tomé começou a cumprir as suas obrigações de apresentação de relatórios à Revisão Periódica Universal (RPU) das Nações Unidas e que o processo de ratificação efectiva dos tratados de direitos humanos está em curso desde 2010. Segundo ele, todos estes esforços são conduzidos pela Direcção dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça. 41. O Sr. Santiago explicou à delegação o processo de elaboração dos relatórios em questão. Existe um comité interministerial que submete o relatório inicial preparado com base em contribuições do público antes de apresentar o relatório que teve em conta as contribuições do público ao Conselho de Ministros. É quando o Conselho de Ministros adopta o relatório que este é enviado à RPU. 42. Discutindo os desafios das questões em causa e o paradoxo assinalado pela delegação de que São Tomé e Príncipe pôde apresentar relatórios periódicos ao sistema da ONU e não ao sistema africano, o Sr. Santiago mencionou a falta de comunicação entre o seu país e a Comissão como o ponto de partida para esta situação. Assim, ele acredita que a partir da presente missão da Comissão no seu país, as coisas irão na direcção desejada e São Tomé participará nas actividades da Comissão e apresentará o seu relatório inicial e os pendentes. Não obstante, ela observou que o método do comité interministerial não é o mais apropriado para uma apresentação eficiente de relatórios periódicos, uma vez que crianças em conflitos armados; o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo à venda de crianças, prostituição infantil e pornografia infantil; o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre a Criação de um Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos (o Protocolo do Tribunal); a Carta Africana da Juventude; a Convenção da OUA que rege os aspectos específicos dos problemas dos refugiados em África; etc. 20
este comité não é fixo ou permanente e não recebe os meios financeiros adequados para um trabalho tão importante. 43. A delegação indicou que tinha tomado nota dos desafios e das propostas de soluções e que as apresentaria ao mais alto nível durante as suas próximas reuniões no âmbito da sua missão. 44. A delegação também tomou nota da informação de que as ONG e as Organizações da Sociedade Civil participam na elaboração de relatórios periódicos no âmbito das relações cordiais que mantêm com a Direcção encarregada dos Direitos Humanos no Ministério da Justiça. Segundo o Sr. Santiago, existe uma Federação dessas estruturas que está em contacto com a Direcção. Esta foi uma oportunidade para a delegação notar a ausência destas organizações das actividades da Comissão e convidar São Tomé e Príncipe a garantir que não serão esquecidas quando a prometida dinâmica de colaboração com a Comissão começar. 45. A delegação observou que São Tomé não tem uma INDH e que a Direcção dos Direitos Humanos no Ministério da Justiça é a que trata de todas as questões de direitos humanos a nível do Estado. ii. Ministra da Justiça e dos Direitos Humanos 46. Tendo em conta que o Ministério da Justiça é o elemento-chave desta missão para o lado santomense, no início da reunião e após as habituais formalidades, a delegação felicitou calorosamente e agradeceu à Ministra Ivete Santos Lima Correia pelas disposições práticas tomadas para assegurar o êxito da missão. 47. Em seguida, reiterou os principais desafios discutidos com a Direcção encarregada dos Direitos Humanos no seio do Ministério. 48. A Ministra Ivete Santos Lima Correia reconheceu estes desafios e garantiu à delegação que seriam feitos esforços para remediar as deficiências o mais rapidamente possível. 49. Ela apontou a questão da cultura e das tradições como um dos obstáculos ao trabalho em curso para a promoção e protecção dos direitos humanos em geral, mas especificamente os das crianças e das mulheres. 50. A Ministra indicou também que a falta de meios financeiros está no centro de toda a problemática dos direitos humanos no seu país, na medida em que não estão disponíveis recursos financeiros para apoiar o Governo na sua política de promoção e protecção dos direitos humanos no país. 51. A Ministra indicou que a delegação poderá fazer as suas próprias constatações relativamente à situação dos direitos humanos no país, através da interacção com os actores relevantes, visitando os locais desejados e que a sua equipa fará todo o possível para assegurar que a missão se realize em condições óptimas. 21
52. Voltando à situação dos direitos humanos no país de acordo com a leitura do seu Ministério, a Ministra citou os progressos e notou os aspectos sobre os quais há necessidade de trabalhar para uma melhoria destes de acordo com os compromissos internacionais do seu país. 53. Assim, em termos de pontos positivos, ela citou: ✓ A nova dinâmica em prol da promoção e protecção dos direitos humanos a partir de 2014 após a criação e integração da Direcção dos Direitos Humanos no gabinete da Ministra da Justiça e Direitos Humanos, que anteriormente era apenas o Ministério da Justiça. Como resultado, a referida Direcção presta agora particular atenção às questões de direitos humanos e, com base nas recomendações, trabalha para sensibilizar os outros membros do governo; ✓ O facto de a taxa de declaração de nascimentos ter agora atingido 96,4% e de estarem previstas sanções para os casos de nascimentos não declarados mais de um ano após a sua ocorrência; ✓ Promoção da educação através da construção de infraestruturas escolares visando a educação universal, a distribuição de kits escolares, o ensino primário gratuito e a aplicação de uma taxa irrisória de um dólar pela matrícula na escola secundária – que ainda não é acessível a alguns pais pobres, a este nível deve ser registada a ajuda considerável da UNICEF; são concedidas bolsas de estudo a alunos cujas mães são pobres, a fim de incentivar a sua escolaridade; ✓ Tendo presente que 70% da população é muito jovem, que 51% são mulheres e 49% são homens, o governo favorece os projectos de empreendedorismo para jovens e mulheres; ✓ Marcha de sensibilização contra o abuso sexual e a violência contra menores; ✓ Foram também criadas várias iniciativas para consolidar os direitos das mulheres, tais como o centro de aconselhamento contra a violência, o Instituto para a Igualdade de Género, o Centro de Apoio às mulheres vítimas de violência, linhas telefónicas gratuitas para denunciar a violência doméstica, esquadras de polícia em cada distrito cujos agentes estão sensibilizados para o fenómeno da violência doméstica (que também afecta os homens), etc.; ✓ A Prisão de São Tomé oferece 3 refeições por dia aos 200 prisioneiros (dos quais 5 são mulheres), e para o conseguir, é praticada a agricultura bem como a criação de aves e outros; os homens são detidos separadamente das mulheres e são respeitadas as Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento dos Prisioneiros (Regras Nelson Mandela); ✓ Existência de um instituto da juventude que visa sensibilizar os jovens para o uso de drogas, álcool e sobre a gravidez precoce; 22
✓ Existência de uma nova unidade dentro do Ministério da Justiça que ajuda os litigantes indigentes; esta unidade é composta por juristas e informa e sensibiliza os referidos litigantes sobre os seus direitos. 54. Os aspectos que requerem atenção são enumerados abaixo pela Ministra: • A não ratificação de certos tratados de direitos humanos; • Prevalência do abuso sexual de menores; • Prevalência de casos de jovens raparigas mães; • Prevalência de violência doméstica; • Prevalência do uso de drogas; • A necessidade da construção de um novo edifício para a prisão que está superlotado e localizado num espaço inadequado. 55. A delegação tendo registado todos estes pontos solicitou que tudo isto se reflectisse no relatório periódico pendente por São Tomé e Príncipe à Comissão, para que estas questões pudessem ser plenamente abordadas pela Comissão. A delegação explicou então o processo de apresentação periódica de relatórios à Comissão e mencionou que São Tomé e Príncipe poderia rapidamente recuperar o atraso, uma vez que já existem mecanismos e processos nacionais de apresentação periódica de relatórios, uma vez que, de acordo com a informação recebida, o país tem experiência do mesmo tipo de processo perante as Nações Unidas. 56. Ambas as partes terminaram a discussão com uma nota optimista sobre a participação de São Tomé nas futuras actividades da Comissão e a apresentação dos seus relatórios periódicos pendentes. 3. Ministro da Juventude, Desporto e Empreendedorismo, também em representação do Ministro dos Recursos Naturais 57. O Ministro Vinícius Xavier de Pina indicou que o seu Ministério trabalha em prol dos direitos dos jovens e, por conseguinte, está interessado em tudo o que toca neste aspecto, tal como faz o mandato da Comissão. 58. Apresentou o trabalho do seu ministério, que é um dos mais importantes do país, uma vez que mais de 70% da população é jovem (com menos de 35 anos). Para o Ministro, esta realidade demográfica é simultaneamente um potencial e um enorme desafio para o país porque o Governo deve responder em tempo real às preocupações desta maioria da população total. 59. Os projectos são a luta contra o desemprego através da criação de uma Direcção de Empreendedorismo no seio do Ministério, a criação de um Instituto da Juventude, a 23
implementação, com a ajuda de parceiros de desenvolvimento, do programa denominado “ela” em benefício das jovens do sector empresarial, a luta contra o VIH, gravidezes precoces, drogas e outras questões relacionadas com a juventude. 60. O Ministro falou também sobre a participação dos jovens na governação e nos assuntos públicos. Observou que o parlamento do país tem 20% de jovens dos partidos no poder e da oposição e que o membro mais jovem do parlamento neste momento tem 30 anos de idade. Mencionou o projecto de criação de um parlamento de jovens dos países lusófonos para debater questões que preocupam os jovens desses países. 61. O Ministro reafirmou à delegação a sua vontade de trabalhar mais com a Comissão, conforme desejado pela Comissária Manuela, que constatou a boa prática de nomear perfis adequados para cargos de governação, como é o caso aqui com São Tomé, que confiou o cargo de Ministro da Juventude a uma pessoa que também é jovem. 62. Relativamente à representação do Ministro dos Recursos Naturais, Vinícius Xavier de Pina informou a delegação que regressaria da sua viagem nesse mesmo dia e que, por conseguinte, poderia ser realizada uma reunião com ele. 4. Ministro da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento Rural 63. A discussão com o Ministro Francisco Martins dos Ramos começou com os conceitos de direitos humanos e dignidade humana. Efectivamente, a delegação, através de uma explicação pedagógica da noção de direitos humanos e das suas ligações com a dignidade humana, esclareceu um mal-entendido do Ministro que parecia estar certo de que a noção de direitos humanos é mais favorável aos perpetradores e aos criminosos do que às pessoas honestas, na medida em que os perpetradores parecem estar mais bem protegidos, apesar de causarem danos às pessoas honestas. O Ministro tinha procurado justificar a justiça popular com base na percepção de que as pessoas têm direitos humanos que são mais favoráveis aos perpetradores do que às vítimas. 64. O Ministro abordou depois as questões de direitos humanos relacionadas com o seu departamento. Estas são a necessidade de rever a lei sobre o acesso à terra e as muitas questões relacionadas com a terra devido à sua escassez ou disponibilidade limitada com base na realidade geográfica de São Tomé, um conjunto de pequenas ilhas. 65. Assim, segundo o Ministro, mesmo que a questão do acesso à terra seja igual na lei para mulheres e homens, ainda existem muitos conflitos de terra devido às tradições e à cultura. 66. O Ministro também mencionou as dificuldades encontradas na implementação dos programas do seu ministério em benefício dos agricultores, tais como o crédito aos agricultores, que está disponível mas que os beneficiários muitas vezes não reembolsam. 24
67. O Ministro, indo além das questões específicas do seu ministério, levantou a questão da qualidade da formação dos profissionais da justiça como uma das principais preocupações do país. 5. Ministro da Saúde, representado pelo Ministro da Justiça 68. A pedido da delegação, que levantou uma série de questões relacionadas com o direito à saúde, o Ministro da Justiça apresentou, em nome do Ministro da Saúde ausente, os esforços e desafios relacionados com o gozo do direito à saúde por parte da população de São Tomé e Príncipe. 69. Os esforços são múltiplos, como apresentado abaixo, e baseiam-se numa estratégia nacional de saúde; ✓ A luta contra a malária está quase ganha, uma vez que não houve mortes por esta doença desde 2014. São Tomé e Príncipe está a considerar adoptar uma lei para punir as pessoas que obstruem a pulverização como parte da luta para erradicar a malária; o diagnóstico e tratamento são gratuitos para a malária; os casos de hospitalização por malária estão drasticamente reduzidos, ou mesmo inexistentes, ao contrário da situação que prevalecia no passado; ✓ A cobertura do território nacional em termos de infraestruturas sanitárias é considerada boa, com hospitais em todos os distritos, centros de saúde comunitários e postos de saúde; ✓ O país tem 148 médicos de clínica geral nacionais; ✓ A vacinação é realizada porta-a-porta de modo a que a cobertura vacinal atinja 100%; ✓ A baixa taxa de mortalidade infantil; ✓ A existência de programas relacionados com a saúde das mulheres grávidas, VIH e cuidados gratuitos é aplicada a mulheres grávidas, crianças com menos de cinco anos de idade e idosos indigentes; ✓ Em relação ao VIH, existe uma lei, um programa de erradicação desta pandemia cuja taxa de prevalência em São Tomé se situa entre 1% e 1,5% e são fornecidos gratuitamente medicamentos anti-retrovirais a mulheres grávidas em casa por profissionais de saúde; há cuidados de saúde suportados pelo Estado em caso de violação para evitar o VIH e gravidez indesejada (administração da pílula do dia seguinte); há distribuição gratuita de preservativos e outros contraceptivos; 25
✓ Existe um hospital de referência e cerca de 30 (trinta) outras instalações de diferentes categorias em que as questões relacionadas com o VIH/SIDA podem ser abordadas; ✓ A estratégia nacional de saúde com algumas das suas componentes, tal como apresentada acima, beneficia do apoio da OMS, FINUAP e UNICEF. 70. Relativamente aos desafios, o Ministro referiu-se à cultura e às tradições como o principal problema para a implementação eficaz da estratégia nacional de saúde, a fim de permitir o gozo efectivo do direito à saúde por parte do povo. Como resultado, existem obstruções, por exemplo, à pulverização para a erradicação da malária, ao estigma em torno do VIH, à questão do aborto que é controversa e punível por lei, etc. A isto há que acrescentar a ausência de sistemas nacionais de seguro de saúde, a falta de especialistas entre o pessoal de saúde, o que obriga as autoridades a recorrer a evacuações para o estrangeiro (Portugal). 6. Ministra do Turismo, Cultura, Comércio e Indústria 71. A Sra. Maria da Graça Lavres, na sua qualidade de Ministra do Turismo, informou a delegação do trabalho que está a ser realizado pelo Governo para assegurar que o turismo beneficia a população e é realizado de uma forma que respeita os direitos humanos. 72. Assim, citou a campanha de sensibilização que começou no final de Setembro de 2019 em Neves, o primeiro distrito escolhido para lançar a campanha sobre os efeitos nocivos do turismo. Estes efeitos nocivos incluem o turismo sexual e o seu abuso de crianças e mulheres, a violência no sector do turismo, incluindo contra turistas, etc. A sensibilização centra-se também na necessidade de as populações locais se apropriarem da questão do turismo para que os benefícios socioeconómicos desta actividade as possam beneficiar. 73. A Ministra disse à delegação que as forças de segurança devem ser elogiadas pelo seu profissionalismo e eficiência no campo do turismo e que estão em curso discussões com o Ministério da Justiça para tornar mais severas as sanções penais por delitos relacionados com o turismo, a fim de combater o crime que tanto prevalece neste campo. 74. A Ministra mencionou a cooperação internacional (com Portugal, África do Sul e Angola, por exemplo) que permite a São Tomé e Príncipe melhorar o seu sector turístico através da renovação de sítios e locais turísticos, bem como da construção de infraestruturas hoteleiras de grande necessidade. O Banco Mundial está a ajudar a criar uma escola de turismo e hotelaria. 75. Em relação a outros desafios no sector do turismo, a Ministra citou a falta de formação dos profissionais do sector, conforme ilustrado pela ausência de uma escola de hotelaria 26
em São Tomé e o baixo envolvimento das entidades nacionais privadas no sector do turismo devido ao seu baixo capital. Estes desafios são acentuados, segundo a Ministra, pela falta de dados estatísticos precisos sobre o sector do turismo em São Tomé e Príncipe. 7. Ministro da Presidência do Conselho de Ministros e dos Assuntos Parlamentares 76. O Ministro Wuando Borges Castro de Andrade debruçou-se sobre os desafios económicos e culturais que minam o compromisso de São Tomé para com a plena implementação das suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos. 77. Segundo o Ministro, apesar dos avanços (como o facto de, pela primeira vez na sua história, o país ter tido uma administração que foi capaz de completar o seu mandato eleitoral à frente do país), existem grandes dificuldades na implementação dos princípios democráticos. Isto deve-se à dimensão do país e dos laços familiares e outros laços entre o público e os actores políticos, pelo que são realizados muitos acordos fora do quadro formal e democrático à custa dos direitos humanos e dos princípios democráticos. 78. O Ministro é de opinião que a não participação e presença de São Tomé nas actividades da Comissão se deve à falta de recursos financeiros, uma vez que o país não tem actualmente um representante permanente nas Nações Unidas e isto deve-se à falta de meios financeiros para suportar os custos de tal representação. 79. Não obstante todos estes desafios, o Ministro reafirmou a vontade da delegação do seu país de trabalhar para um melhor respeito pelos direitos humanos, de acordo com as suas obrigações internacionais. 8. Encontro com o Primeiro-Ministro 80. O Primeiro-Ministro Jorge Lopes Bom Jesus, como a mais alta autoridade do governo anfitrião reuniu-se com a delegação durante a missão, saudou a delegação e salientou a vontade do seu país de cooperar e colaborar com a Comissão para melhorar o seu desempenho na promoção e protecção dos direitos humanos. 81. Ele descreveu o contexto dos direitos humanos do seu país e os fundamentos do seu governo a este respeito. Informou a delegação que o seu país tem uma tradição histórica de hospitalidade devido às diversas origens da população e à mistura de culturas. Estas são pessoas do continente africano e do continente europeu, e mesmo mais além. Acrescentou que o seu país é o 2º mais pequeno de África e é um estado insular. Estas realidades têm vantagens e desvantagens. Quanto às vantagens, falou da cultura de boa vizinhança e do espírito de fraternidade que se reflecte em afirmações como “são todos parentes” e “são todos primos em São Tomé e Príncipe”. 27
82. Do acima exposto, de acordo com o Primeiro-Ministro, existe uma visão dos direitos humanos que emerge em São Tomé; é o facto da sua gente ser um ser social e não individualista. Todos se conhecem e isto tem um impacto nas questões de direitos humanos. 83. Para o Primeiro-Ministro, o sistema democrático do seu país funciona e mesmo que haja altos e baixos, o seu país não é um lugar de violência para que a adesão à independência tenha sido feita em paz. 84. Segundo o Primeiro-Ministro, os desafios económicos e financeiros são os que têm um impacto negativo nos direitos humanos no seu país, uma vez que existem muitas deficiências a nível social e em termos de infraestruturas. No entanto, existem muitas potencialidades que precisam de ser exploradas, tais como a fertilidade do solo e os recursos naturais relativamente abundantes, que são praticamente virgens em termos de desenvolvimento. 85. Tendo em conta o acima exposto, o Primeiro-Ministro reiterou a ambição do seu país de ser um modelo na promoção e protecção dos direitos humanos e apelou assim à Comissão para apoiar esta dinâmica, regressando ao seu país tantas vezes quantas as necessárias. 86. Na sequência deste pedido do Primeiro-Ministro, a delegação instou-o a usar da sua autoridade para assegurar a participação de São Tomé nas actividades da Comissão e a apresentação dos seus relatórios em tempo útil. 87. O Primeiro-Ministro tomou nota deste pedido e indicou que as deficiências mencionadas não eram da responsabilidade do seu país, mas que existiam devido à falta de meios financeiros e que iria trabalhar com os ministérios relevantes para normalizar as coisas. Por exemplo, sugeriu que a carga financeira destas actividades fosse incluída nos orçamentos futuros do seu país. 88. O Primeiro-Ministro encerrou a reunião agradecendo à delegação e à Comissão e assegurando-lhes a vontade política de fazer melhor em termos de direitos humanos e especialmente de assegurar que a riqueza do país, como o petróleo recentemente descoberto, beneficie a população em pé de igualdade, para que possam viver com dignidade e respeito por todos os seus direitos humanos. 9. Encontro na Presidência da República 89. A delegação encontrou-se com o Sr. Urbino Botelho, conselheiro de relações internacionais do Presidente da República de São Tomé, e com o Sr. Américo Ramos, conselheiro para as questões económicas. 28
90. Os conselheiros do Presidente da República, mandatados por ele, desejaram conhecer as primeiras conclusões da missão, a fim de conhecer o seguimento desta colaboração iniciada por esta primeira visita da Comissão ao país. 91. A delegação traçou então uma panorâmica das actividades da missão e insistiu nos pontos-chave que devem ser tidos em conta pelas mais altas autoridades do país. Estas são a participação de São Tomé nas actividades da Comissão, a apresentação dos seus relatórios, a situação da prisão, a situação do sistema judicial que precisa duma reforma, as numerosas reformas das leis que precisam de ser iniciadas para uns ou finalizadas para outros. A delegação mencionou a lei sobre as pessoas com deficiência, que está alegadamente estagnada a nível da Presidência da República no que diz respeito à sua promulgação. 92. Os conselheiros do Presidente da República disseram à delegação que tinham tomado nota destes elementos e que informariam o Presidente ao mesmo tempo que aconselhavam sobre acções que poderiam abordar adequadamente estas questões. 10. Breve reunião com a Ministra da Justiça 93. A Ministra da Justiça recebeu a delegação antes da sua conferência de imprensa de encerramento no último dia da missão para analisar o progresso da visita e discutir as perspectivas desta primeira missão de promoção da Comissão em São Tomé e Príncipe. 94. Assim, as questões prementes a serem abordadas são as seguintes: i. A necessidade urgente de colocar os prisioneiros estrangeiros (um filipino e um nigeriano) em contacto com as suas respectivas embaixadas; ii. Contactar o CICIR para fornecer medicamentos para a clínica da prisão; iii. A promulgação da lei sobre as pessoas com deficiência e a necessidade de ratificar os dois protocolos da União Africana que tratam dos direitos das pessoas idosas e das pessoas com deficiência; iv. Tratar urgentemente o caso do residente da Casa dos Pequeninos que sofre de hidrocefalia, inclusive através de evacuação médica para fora do país, se necessário; v. Apoiar ainda mais os esforços das instituições sociais como a Casa dos Pequeninos e o Centro Mãe Clara; vi. Trabalhar para assegurar a continuidade da administração para que os ganhos não se percam com mudanças nas equipas de governação. b) As autoridades parlamentares: Assembleia Nacional 29
11. 95. 96. 97. 98. 99. 100. 101. A delegação foi recebida por sua Excelência o Senhor Delfin Santiago das Neves, Presidente da Assembleia Nacional, juntamente com os Vice-Presidentes da instituição, os Ilustres senhores Guilherme Otaviano dos Ramos e Levy Nzare. A reunião contou também com a presença de deputados e funcionários da Assembleia Nacional. 102. O presidente da Assembleia Nacional apresentou a sua instituição como sendo composta por 55 deputados dos 6 distritos e da região autónoma que formam o mapa eleitoral de São Tomé e Príncipe. Acrescentou que o presente mandato é constituído por dois partidos políticos, uma coligação e um movimento de cidadãos. 103. Questionado sobre a problemática do género na Assembleia Nacional, o presidente informou a delegação que uma resolução da instituição requer uma representação de mulheres de pelo menos 30% a nível das entidades que têm de concorrer a lugares na Assembleia Nacional. Indicou que as mulheres representam entre 12 e 14 por cento dos membros da actual Assembleia Nacional. O Presidente informou a delegação que a resolução acima referida deveria ser incluída na lei eleitoral de acordo com o projecto de revisão da lei eleitoral e que existe também uma lei sobre a paridade que está a ser preparada. 104. O presidente também notou o papel crucial da Assembleia Nacional no processo de reforma das leis do país e indicou que a sua instituição está a trabalhar nesta questão, mas existem dificuldades políticas com o poder executivo que ele espera que sejam resolvidas o mais rapidamente possível. 105. Segundo o presidente da Assembleia Nacional, a sua instituição é a que tem competência para ratificar acordos internacionais enquanto o governo tem competência para assinar e o Presidente da República para promulgar. Assim, com base nesta competência e na de aprovar leis, está em contacto permanente com o sistema das Nações Unidas no país para fazer avançar a reforma em curso no país. Um exemplo bem sucedido desta colaboração é o parlamento das crianças criado com o apoio da UNICEF. 30
106. Os membros da Assembleia Nacional também mencionaram a questão dos recursos financeiros como um verdadeiro entrave a todos os esforços do país em prol do desenvolvimento, da democracia e do respeito pelos direitos humanos. c) As autoridades judiciárias e de segurança 1. Presidente do Supremo Tribunal 107. A delegação foi recebida pelo Dr. Manuel Silva Gomes Cravid, Juiz Presidente do Supremo Tribunal para falar sobre as realidades da instituição que dirige e sobre a situação do poder judiciário em geral. O encontro contou também com a presença dos juízes Dr. Frederico da Glória e Dr. Silvestre da Fonseca Leite. 108. Para o presidente, o Supremo Tribunal é a mais alta instância para julgar casos de direitos humanos, e o seu funcionamento é o mesmo que em outros países de língua portuguesa (2ª instância). Por enquanto, o tribunal está composto por apenas 4 juízes, ao passo que a lei prevê que esta jurisdição seja composta por 8 juízes.. Convém notar que a composição actual do Supremo Tribunal não inclui nenhuma mulher. 109. O mapeamento das jurisdições mostra 3 regiões judiciais (São-Tomé, Lemba, Príncipe) e a zona sul também precisa de um tribunal. Ele constata que as pessoas que vivem em zonas rurais têm dificuldade em aceder à justiça porque normalmente têm de vir de muito longe. O ideal seria que houvesse pelo menos 5 regiões judiciais. 110. O Conselho Superior da Magistratura não funciona correctamente e não é autónomo devido às condições financeiras. 111. O presidente do Supremo Tribunal insiste na necessidade de reforma do sistema judicial em paralelo com o fornecimento de recursos materiais e humanos para que este possa funcionar de forma independente e eficaz. Isto permitirá resolver a questão da acumulação de processos perante os vários tribunais do país, que se estima ser de cerca de mil processos. 112. Ele informou que quase todas as leis que constituem a base do direito aplicável em São Tomé devem ser reformadas e adaptadas às realidades do país tal como se apresentam neste momento e não permanecer como as recebidas da era colonial. 2. Procurador-adjunto da Procuradoria-Geral da República 113. Na ausência do Procurador-Geral, o Procurador-Geral Adjunto, Sr. Roberto Raposo recebeu a delegação a quem apresentou a configuração da Procuradoria-Geral da República. Esta é composta pelo Procurador-Geral da República com 3 procuradores31
adjuntos. Ele indicou que o país tem 16 magistrados. Mencionou que existe um Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público criado pela lei nº 13/2008 de 7 de Novembro. O Sr. Roberto Raposo acrescentou que o crime mais recorrente no país com o qual o sistema penal lida é o furto. De acordo com ele, muitos casos de violência doméstica não chegam aos tribunais devido à existência de um centro de aconselhamento sobre a questão. 114. O procurador-adjunto informou a delegação sobre a criação de uma unidade especial que trata da questão dos menores em conflito com a lei. 115. Falou também da existência de uma inspecção dos serviços judiciais. 116. A delegação foi informada pelo procurador-adjunto que, no que diz respeito ao período máximo de prisão preventiva em São Tomé, de acordo com o artigo 172.º do Código de Processo Penal, o período entre a detenção e o início do julgamento é de 3 a 7 meses; o período de custódia policial é de 48 horas e 72 horas no máximo. De acordo com o procurador-adjunto, o cumprimento rigoroso deste prazo seria difícil, mas são feitos esforçospara assegurar que o suspeito seja apresentado a um juiz no prazo de 24 horas após o encaminhamento do seu caso pelo procurador. Observou-se que as distâncias entre o local de detenção e a apresentação do detido ao juiz têm uma grande influência no não cumprimento dos prazos. 117. Segundo o procurador-adjunto, os casos de flagrante delito são julgados no mesmo dia. 118. A delegação foi também informada da existência de assistência jurídica estabelecida por uma lei N° 9/2012 de 28 de Dezembro, mas não funciona de forma adequada devido aos desafios financeiros do país. 119. O procurador-adjunto informou a delegação que as visitas são efectuadas por magistrados para verificar as condições de detenção. 120. Por último, o procurador-adjunto mencionou que existem promessas de cooperação para a reforma do sistema judicial entre o Presidente da República, o Primeiro-Ministro e o Presidente da Assembleia Nacional e convidou a União Africana a participar. 3. Polícia Judiciária 121. A Directora (Sra. Maribel Rocha) e o seu adjunto (Sr. Avelino Quaresma) receberam a delegação, que foi informada de que mesmo que a Polícia Judiciária de São Tomé trabalhe sob a supervisão do Ministério da Justiça, ela é tecnicamente autónoma no que diz respeito às investigações. 32
122. Segundo a sua directora, esta instituição, que só está presente na capital onde tem os seus escritórios, tem 43 agentes para uma população de 200.000 habitantes. Este pessoal inclui 15 mulheres, incluindo a directora, e tem 13 inspectores. Está estruturada em duas secções, uma técnica e operacional e a outra dedicada a investigações. 123. A delegação notou a inadequação das instalações da Polícia Judiciária, tal como mencionado pela sua directora durante a entrevista. Estas instalações não têm um laboratório e necessitam de outros equipamentos e pessoal ou meios de trabalho adequados para a missão com que a Polícia Judiciária é incumbida. Isto é tanto mais urgente quanto o crime violento está a aumentar no país, segundo a directora da Polícia Judiciária, que cita o consumo e circulação de drogas como uma das razões para esta infeliz tendência. 124. A Directora da Polícia Judiciária disse à delegação que os direitos humanos são respeitados pelos seus serviços e que os agentes recrutados através de um concurso público recebem formação sobre o assunto como parte do seu curso para se tornarem operacionais como membros da Polícia Judiciária. Ela lamentou a ausência de uma escola ou academia de polícia no país. 125. A Directora da Polícia Judiciária falou de esforços para evitar violações dos direitos humanos no exercício da sua missão, trabalhando, por exemplo, para não ter de deter pessoas acusadas nas celas inadequadas da sua instituição. A delegação foi informada que a Polícia Judiciária de São Tomé e Príncipe tem uma brigada dedicada aos menores e às mulheres. 4. Comandante da Polícia Nacional 126. O Inspector Geral da Polícia Nacional, Sr. Denylson Cunha, e o Comandante Geral da Polícia Nacional, Sr. Roldao dos Santos Dias Boa Morte, foram os interlocutores da delegação para este encontro com a Polícia Nacional. 127. Informaram a delegação que, no que respeita à formação da Polícia Nacional, os efectivos da Polícia Nacional, os quadros superiores são formados graças a parcerias com 33
Portugal, Rússia, Moçambique e Angola. Estas formações incluem módulos sobre direitos humanos. 128. No que respeita à cobertura geográfica do território pela Polícia Nacional e às estatísticas sobre o número de agentes, os dois oficiais superiores disseram à delegação que existem esquadras de polícia em todos os distritos do país e que o número total de agentes se situa entre 525 e 530, o que é inferior ao rácio aceitável de acordo com as normas internacionais (1 agente por 250 habitantes). Existe, portanto, um défice de 200 a 250 agentes policiais em São Tomé e o recrutamento e a formação actualmente em curso estão a concentrar-se nas mulheres, que estão sub-representadas nesta instituição. 129. Ainda que os recursos sejam limitados, desde 2015 tem havido uma evolução positiva na percepção que os cidadãos têm da polícia, que é a principal responsável pela manutenção da ordem. 130. Em matéria de drogas, a Polícia está preocupada com o cultivo da marijuana e nota que o país é um ponto de trânsito e a Polícia Judiciária está a tratar desta questão criminal. B. As reuniões com os actores não-estatais 1. Sistema das Nações Unidas em São Tomé e Príncipe 131. Os membros do Sistema das Nações Unidas em São Tomé e Príncipe com quem a delegação se reuniu foram a Representante do PNUD (Coordenador Residente), Kasia Wawiem, a administradora do programa da UNICEF e representante adjunta, Angela B. Lima, os Analistas de Programa da PNUD, Sabina Rams e Nelma Rite. 132. Os interlocutores da delegação indicaram que o sistema das Nações Unidas em São Tomé está em plena implementação de um projecto que visa incorporar ou receber seis tratados no direito positivo do país. Este projecto está a ser levado a cabo com a sociedade civil e os meios de comunicação social, que estão a trabalhar para popularizar os tratados em questão de modo a torná-los acessíveis à população; por outro lado, o projecto está a reforçar as capacidades do Ministério da Justiça sobre os referidos tratados. 133. O sistema das Nações Unidas em São Tomé informou a delegação que, com o seu apoio, foram ratificados oito tratados e os instrumentos de ratificação depositados junto da União Africana em Junho de 2019. 134. O sistema das Nações Unidas em São Tomé e Príncipe disse também que tinha ajudado a estabelecer uma estrutura de monitorização e acompanhamento da 34
implementação dos tratados no país. Sugere-se que esta estrutura poderia ser a encarregada dos relatórios periódicos, tais como os que estão pendentes na Comissão. 135. A delegação soube que o 5º e 6º relatório periódico do país ao Comité dos Direitos da Criança da ONU será apresentado em Maio de 2020 em Genebra e este trabalho foi feito com o apoio financeiro e técnico da UNICEF. 136. Os membros do sistema das Nações Unidas em São Tomé e Príncipe explicaram à delegação o seu trabalho sobre vários outros aspectos dos direitos humanos no país, incluindo a luta contra o abuso sexual, violência doméstica e infantil, educação, saúde, VIH, água, saneamento e outros. Mencionaram especialmente o seu projecto sobre governação democrática que as Nações Unidas estão a financiar e ao abrigo do qual foi feito um pacto perante a nação entre o Presidente da República, o presidente da Assembleia Nacional e o Primeiro-Ministro sobre a reforma do sistema judicial. 137. A delegação felicitou e encorajou o sistema das Nações Unidas em São Tomé e Príncipe por este compromisso significativo para com os direitos humanos no país e esperava que a Comissão fosse envolvida, conforme apropriado, neste trabalho em curso, particularmente em questões de reforma judicial. 2. Ordem dos Advogados de São Tomé e Príncipe/Plataforma de Direitos Humanos e Cidadania 138. A Mestrada Celia Posser, Bastonária da Ordem dos Advogados de São Tomé recebeu a delegação em nome tanto da Ordem dos Advogados como da Plataforma para os Direitos Humanos e Cidadania. 139. Falando sobre o acesso à profissão de advogado em São Tomé e Príncipe, ela disse que os aspirantes devem ter uma licenciatura em Direito e completar um estágio mínimo de seis meses num escritório de advogados, após o que o supervisor do estágio certifica a sua aptidão para a profissão através de um relatório. A deontologia e as técnicas práticas da profissão são adquiridas durante o estágio e não através de uma formação formal e sistemática, que ainda não existe no país. A este respeito, a sede da Ordem está a ser renovada para permitir essa formação, mas faltam ainda professores e materiais didácticos devido à ausência de recursos financeiros. 140. A bastonária da Ordem deplorou o não pagamento durante 3 anos consecutivos dos montantes devidos pelo Estado à Ordem como contrapartida da assistência jurídica prestada por esta última e, por conseguinte, a suspensão deste serviço por parte da Ordem. Como resultado, a assistência jurídica tem sido paga desde então por funcionários do Ministério da Justiça. 35
141. A Bastonária da Ordem dos Advogados disse que há cerca de 183 advogados inscritos na Ordem dos Advogados do país e a maioria destes foram formados localmente nas três faculdades de direito existentes em São Tomé e Príncipe. Esta formação inclui direitos humanos, segundo a bastonária, que está confiante de que os advogados do país estão bem instruídos sobre a Comissão e a Carta, bem como sobre outros instrumentos de direitos humanos. 142. A bastonária expressou as suas opiniões sobre o sistema judicial do país, que se diz ser politizado na medida em que todos os níveis de jurisdição são afectados por esta situação. 143. Relativamente ao tema da Plataforma para os Direitos Humanos e Cidadania, a Bastonária da Ordem dos Advogados observou que as actividades da Plataforma estão por enquanto em suspenso, mas que a Plataforma trabalhou numa proposta de lei sobre o acesso à informação e outros projectos que ficaram em suspenso desde então, com o corolário de acentuar a fragilidade da separação de poderes no país, e a regressão da participação cívica devido ao medo de se expressar sobre os assuntos públicos. 144. A bastonária resumiu as suas observações dizendo que o país está em crise e isto reflecte-se em todas as alavancas e estruturas responsáveis pela promoção e protecção dos direitos humanos, práticas democráticas e boa governação. 3. Cruz Vermelha 145. O presidente (Sr. Frederico Estavo dos Anjos), o secretário-geral (Sr. Justino Lima) e um membro (Sr. Samuel António) representaram a Cruz Vermelha durante a reunião da delegação com esta organização humanitária. 146. Segundo estes representantes, uma vez que o país não está a ser fustigada pela guerra ou conflitos armados, o trabalho da Cruz Vermelha está mais centrado na assistência social, principalmente com os idosos. Assim, embora por vezes existam problemas de financiamento, a Cruz Vermelha tem algumas parcerias com o sector público, Espanha e outros países. 147. Além disso, uma das situações específicas levantadas pela Cruz Vermelha e que requer apoio técnico é a integração profissional dos jovens; de momento, a sua acção está mais centrada nos idosos. 148. A Cruz Vermelha também intervém na assistência às vítimas dos incêndios. 149. No que diz respeito ao acompanhamentos dos prisioneiros, a Cruz Vermelha não quer interferir nos assuntos internos do país, nem sente a necessidade de o fazer. 150. A delegação encorajou a Cruz Vermelha a visitar a prisão e outros locais de detenção e a fornecer medicamentos aos prisioneiros na prisão e a estabelecer uma rede/parceria com outros países em África. 36
4. Associações de deficientes e cegos de São Tomé e Príncipe 151. O encontro com as Associações de pessoas portadoras de deficiência e deficientes visuais permitiu à delegação constatar que foi elaborada uma lei sobre os direitos das pessoas portadoras de deficiência mas que esta ainda não foi promulgada e, por conseguinte, ainda não é aplicável. Assim, esta parcela da população, que representa entre 10% e 18% da população total do país, sente-se marginalizada e não representativa na esfera pública e social. Isto leva a uma falta de acesso ao emprego para as pessoas portadoras de deficiência, quer tenham ou não formação. Não têm rendimentos, o tabu sobre as pessoas deficientes nas suas famílias é muito prejudicial para elas e precisam de ajuda para a sua própria existência. 152. Para os cegos e deficientes visuais, não existem escolas para os ensinar a ler ou a escrever, o que significa que não têm qualquer actividade e, portanto, nenhuma fonte de rendimento. 153. Além disso, não há sinalização rodoviária que lhes permita circular em segurança, e para as pessoas com deficiências motoras, a falta de rampas é também um problema. Estes elementos estão em falta nos Ministérios da Justiça, Administração Pública e Direitos Humanos e Assuntos Sociais, que deveriam estar na vanguarda da promoção e protecção dos direitos destas pessoas vulneráveis. 154. Os interlocutores da delegação neste encontro defenderam que estes últimos exigissem que o seu país ratificasse os tratados que lhes dizem respeito e outros tratados de direitos humanos, a fim de os beneficiar. 5. Encontro com actores do sector da comunicação social 155. A delegação reuniu-se com três pessoas em representação de duas estruturas do sector dos meios de comunicação social. Estes foram o presidente do Sindicato dos Jornalistas e Técnicos de São Tomé e Príncipe, Sr. Hélder Bexigas, e o presidente do Conselho de Ética do referido sindicato; e o presidente da Associação dos Jornalistas e Técnicos de São Tomé e Príncipe, Sr. Juvenal Rodríguez. 156. As discussões sobre o sector dos media, a liberdade de expressão e de informação conduziram às seguintes observações: • Existe uma relativa liberdade de expressão e de acesso à informação comparativamente à situação entre o regime actual e o anterior; • Existem aproximadamente 100 profissionais dos meios de comunicação social e não estão adequadamente formados porque as pessoas chegam a esta profissão 37
devido à falta de empregos e as pessoas qualificadas para esta profissão estão noutros sectores devido à falta de atractividade da profissão; • Há uma televisão pública nacional e uma rádio pública nacional que têm a maior cobertura do território; • Existe apenas uma televisão privada e está online; • Existe apenas um jornal privado, duas estações de rádio privadas, uma das quais é a estação de rádio católica; esta situação levou a uma proliferação de meios de comunicação online; • Existem estações de rádio comunitárias que operam em condições legais e regulamentares precárias, 157. Para além do acima exposto, a delegação tomou conhecimento de que os meios de comunicação social são altamente politizados e não-profissionais. 158. A delegação tomou nota da existência da Lei nº 2/93 de 8 de Abril de 1993 sobre a imprensa, alterada pela Lei nº 3/96 de 20 de Junho de 1996, que os interessados com quem nos reunimos gostariam de ver revista. 159. A Associação de Jornalistas tem 30 membros, que são jornalistas e repórteres de imagem. É recente e visa, entre outras coisas, a formação de profissionais do sector. 160. O Sindicato dos Jornalistas, que tem cerca de 100 membros, tem um assento no Conselho Superior de Imprensa. A. Visitas a locais relevantes para os direitos humanos 1. Visita ao distrito de Lemba 161. A delegação visitou o distrito de Lemba e reuniu-se com o presidente da câmara do distrito na cidade de Neves, capital desta subdivisão territorial e administrativa de São Tomé e Príncipe. 162. Durante esta viagem, a delegação efectuou uma visita guiada ao Centro Social Mãe Clara. i. Reunião na Câmara Municipal do Distrito de Lemba, na Cidade de Neves 163. A delegação foi recebida pelo presidente da câmara do distrito, Sr. Albertino Barros, que falou das realidades do seu círculo eleitoral e das implicações para o gozo dos direitos humanos pelas suas populações. 164. Ele indicou que o distrito de Lemba é a zona mais industrializada do país e isto acarreta desafios, incluindo a violência relacionada com o consumo excessivo de álcool, 38
mas também esta industrialização oferece oportunidades como um melhor acesso ao emprego e, portanto, uma melhor qualidade de vida. 165. O presidente da câmara falou da situação política do país em geral e afirmou que São Tomé é uma democracia, apesar dos altos e baixos temporários. Expressou igualmente a sua convicção de que o país está a tentar cumprir as suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos, como evidenciado, no que respeita ao seu distrito administrativo, colocando a questão da protecção das crianças no centro das suas acções de governação. Para o efeito, ele citou a marcha verde planeada pelos seus serviços nos próximos dias como é tradicional nesta altura do ano para combater o abuso de crianças. 166. O Sr. Albertino Barros identificou a falta de recursos financeiros como o principal desafio para a plena implementação dos tratados de direitos humanos pelo seu país. A solução para isto seria mais unidade e cooperação entre países africanos para permitir o desenvolvimento para o povo africano. 167. O Sr. Albertino Barros salientou à delegação que o seu distrito é um grande beneficiário da cooperação do seu país com a China. 168. Para concluir a sua intervenção, o Sr. Albertino Barros elogiou as excelentes relações de cooperação e colaboração que existem entre a Câmara Municipal e o Centro Social Mãe Clara, que será visitado pela delegação. ii. Visita guiada ao Centro Social Mãe Clara, na Cidade de Neves 169. A delegação fez uma visita guiada ao Centro Social Mãe Clara e conheceu todos os serviços oferecidos por esta estrutura da Irmã Lúcia Cândido, que é a responsável pelo centro, com a ajuda de pessoas da comunidade Lemba e não só. 170. O Centro Social Mãe Clara é uma estrutura impressionante, tanto em termos das suas infraestruturas como dos serviços sociais que oferece, em benefício da comunidade em que está localizado e de todo o país. Foi solenemente inaugurado a 08 de Setembro de 2019 e inclui uma creche, escola (jardim de infância, primária e secundária), sala de informática, casa de repouso, refeitório social, clínica dentária, serviço médico geral, sala de formação artesanal, oficina de costura e oficina de carpintaria. 171. A delegação ficou impressionada com o dinamismo da responsável e do pessoal que aí trabalha, pelo que felicitou e encorajou tal empenho e tomou nota das queixas deste Centro Social quanto à necessidade de financiamento. 2. Visita guiada e entrevista na Casa dos Pequeninos 39
172. O Sr. Maria de Cristo, Director da Caritas, e a Sra. Felícia Sousa Pontes, Directora das instalações, foram os interlocutores e guias da delegação durante esta visita e entrevista. Da visita e da entrevista, a delegação observa o seguinte: • A Casa dos Pequeninos existe há quase 21 anos; durante 16 anos funcionou dentro do Caritas num pequeno edifício que não era adequado para servir e proteger as crianças. • Com a ajuda da Cooperação Portuguesa, foi construído um novo edifício com capacidade para 40 crianças (indigentes, abandonadas, órfãs), mas actualmente estão 44 crianças dos 0 aos 7 anos de idade na instituição; contudo, a Casa mantém um serviço descentralizado para uma criança de 16 anos de idade cuja deficiência não lhe permite cuidar de si. • As razões pelas quais estas crianças vêm para a Casa dos Pequeninos são o abandono por familiares, disputas entre familiares, morte de familiares e famílias pobres. • O seu pessoal é composto por 38 trabalhadores de formação e alguns psicólogos, cozinheiros e auxiliares de limpeza. • A Casa dos Pequeninos não só trabalha no cuidado das suas crianças (educação, alimentação e cuidados de saúde), mas também visa tornar possível a reintegração destas crianças nas suas respectivas famílias ou em famílias de acolhimento. • A Casa apreciaria mais actividades de educação social, actividades recreativas e outras ocupações durante o tempo livre. • Os processos de cada criança são enviados aos parceiros governamentais (Ministério da Justiça, Saúde, Trabalho) para apoio e acompanhamento do trabalho da Casa dos Pequeninos, que apreciaria um maior envolvimento dos seus parceiros governamentais, mesmo que seja apenas com visitas para os acompanhar de vez em quando. Apenas uma das crianças da Casa não está registada. • A Casa também trabalha no sentido da adopção dos seus residentes, inclusive por estrangeiros. • A cooperação portuguesa fornece 90% do orçamento anual da instituição, cujas prioridades são: Alimentação, Saúde e Educação. O Estado de São Tomé e Príncipe atribui anualmente uma soma de 12.000 Dobras à Casa dos Pequeninos e outros doadores de empresas privadas, que ascendem a 10% deste orçamento. Além disso, por vezes as OSC contribuem com doações de alimentos. 3. Visita às prisões de São Tomé e Príncipe i. A prisão central 40
173. Durante a missão, os membros da Comissão visitaram também a prisão do país. Uma única infraestrutura com mais de 130 anos de existência e que não reúne as condições de uma prisão de acordo com as novas realidades para todo o país e com uma capacidade de 80 reclusos, mas que contém actualmente mais de 200 ocupantes, incluindo 5 mulheres na secção feminina do complexo. 174. Existem actividades geradoras de rendimento para os prisioneiros que trabalham principalmente em prol da comunidade, como uma punição alternativa à privação da liberdade. 175. Além disso, existe uma formação académica dentro do estabelecimento, que corresponde ao primeiro ciclo de escolaridade - do 1º ao 4º ano. Posteriormente, alguns deles vão para o estrangeiro para continuarem a sua formação e regressam. Um dos prisioneiros concluiu o 10º ano do ensino geral. 176. A prisão oferece cursos de agricultura, criação de animais, pesca e artesanato como formação profissional. 177. Observou-se que havia problemas sanitários, e que o edifício prisional precisava de ser reabilitado, e também que se encontrava numa área imprópria, uma vez que estava rodeado de habitações. Não dispõe de sala de visitas e utiliza um espaço rudimentarmente equipado para o efeito. 178. Em Príncipe não há prisão, a única prisão é na ilha de São Tomé. 179. A administração prisional enumerou problemas e desafios tais como infraestruturas inadequadas, falta de uma ambulância para evacuar os prisioneiros em caso de necessidade quando estes são admitidos na clínica da prisão, falta de medicamentos e falta de um médico na clínica que tem apenas duas enfermeiras e dois auxiliares de saúde, etc. 180. Nas entrevistas improvisadas, a delegação pôde recolher queixas dos prisioneiros, alguns dos quais disseram ter sido maltratados e espancados. Também foi feita menção à má qualidade dos alimentos oferecidos pela prisão e alguns prisioneiros disseram não querer falar por medo de represálias. ii. A prisão militar 181. A prisão militar visitada oferecia um ambiente relativamente melhor em comparação com a prisão civil. 182. Esta prisão militar tem 7 celas, 2 salas de visita e a delegação foi informada de que, na eventualidade de uma detida do sexo feminino ser admitida, seriam tomadas as providências adequadas. 41
183. A prisão militar está localizada dentro dos limites de um campo militar e no momento da visita tinha dois detidos, incluindo um prisioneiro em prisão preventiva e uma pessoa sob medida disciplinar. 6. 184. 185. 186. 187. 188. 189. 190. 191. 192. 7. 193. 194. 195. 196. 8. 197. 198. vii. viii. ix. x. xi. xii. B. Conferência de imprensa 42
199. A delegação da Comissão realizou uma conferência de imprensa no final da sua missão para partilhar com os meios de comunicação social e o público as primeiras conclusões da missão de promoção realizada no país de 1 a 4 de Outubro de 2019. SEGUNDA PARTE OBSERVAÇÕES E ANÁLISE DA SITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EM SÃO TOMÉ E PRINCIPE 200. As reuniões e sessões de trabalho realizadas com as partes interessadas envolvidas na promoção e protecção dos direitos humanos permitiram à Comissão identificar a evolução positiva da situação dos direitos humanos no país. No entanto, a missão identificou também áreas de preocupação. I. EVOLUÇÃO POSITIVA DA SITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EM SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE 201. Os pontos positivos abrangem várias áreas e questões relacionadas com os direitos humanos, conforme agrupadas por tema abaixo: Dinâmica e vontade políticas e reformas jurídicas 43
✓ A relativa estabilidade no país no momento da visita. Com efeito, São Tomé e Príncipe viveu uma agitação política e apesar de, na altura da visita da delegação, o Governo em funções ter exercido apenas 10 meses de poder de Estado desde tomada de posse, os actores políticos e sociais estavam numa dinâmica pacífica e tinham a vontade de encontrar soluções consensuais e pacíficas para os desafios e mal-entendidos entre eles; ✓ A vontade política manifesta e o empenho do Governo de São Tomé e Príncipe em prol do gozo efectivo dos direitos humanos. Esta vontade reflecte-se no tom calmo e nas acções fortes das mais altas autoridades do país para instalar um clima de país social e princípios democráticos no debate nacional e na vida quotidiana do país. Além disso, um quadro normativo e uma cultura de direitos humanos parecem oferecer ao país um terreno fértil para a promoção e protecção dos direitos humanos decorrentes das disposições da Carta e de outros instrumentos regionais e internacionais ratificados pelo país; ✓ A nova dinâmica em prol da promoção e protecção dos direitos humanos a partir de 2014 após a criação e integração da Direcção dos Direitos Humanos no gabinete da Ministra da Justiça e Direitos Humanos, que anteriormente era apenas o Ministério da Justiça. Como resultado, a referida Direcção presta agora particular atenção às questões de direitos humanos e, com base nas recomendações, trabalha para sensibilizar os outros membros do governo; ✓ O facto de, pela primeira vez na sua história, o país ter tido uma administração que conseguiu terminar o seu mandato eleitoral à frente do país é um contexto favorável para a protecção e promoção dos direitos humanos; ✓ A ideia das mais altas autoridades do país de incluir os custos financeiros destas actividades de cooperação com a Comissão nos futuros orçamentos do país; ✓ A vontade das mais altas autoridades do país de assegurar que a riqueza do país, como o petróleo recentemente descoberto, beneficie a população em pé de igualdade, para que possam viver com dignidade no respeito e protecção de todos os seus direitos humanos; 44
Ratificação dos instrumentos internacionais em matéria de direitos humanos e cooperação com a Comissão; ✓ Esforços para cumprir as obrigações de apresentação de relatórios ao abrigo da Revisão Periódica Universal e a ratificação de vários instrumentos internacionais e regionais desde 2018 sob a liderança da Direcção dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça e com o apoio de parceiros internacionais como a União Africana e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento; ✓ A apresentação de dois relatórios no âmbito da Revisão Periódica Universal e a finalização do segundo relatório no âmbito da Carta das Nações Unidas para os Direitos da Criança, que será examinada no final de 2020; ✓ O projecto tripartido União Africana - Nações Unidas - São Tomé, que está actualmente a ser implementado, visa a ratificação dos instrumentos internacionais, incluindo seis tratados de direitos humanos, para os adaptar às leis nacionais e aplicar de forma efectiva no país; ✓ A criação de uma estrutura nacional responsável pelo acompanhamento da implementação do projecto de ratificação e adaptação à legislação nacional dos tratados internacionais, tal como previsto no projecto tripartido acima mencionado; ✓ A aceitação pelas partes interessadas, incluindo os actores estatais, de que existem enormes desafios no que respeita às obrigações internacionais de São Tomé e Príncipe em matéria de direitos humanos e a sua determinação em assegurar que estas questões sejam abordadas, incluindo a apresentação dos seus relatórios periódicos à Comissão e a participação nas suas actividades, conforme necessário; Instituição Nacional de Direitos Humanos/ Gabinete do Provedor de Justiça ✓ Os esforços em curso com vista à criação de uma instituição nacional de protecção e promoção dos direitos humanos ou de um provedor de justiça; Justiça ✓ A existência de um sistema de assistência aos indigentes em processos judiciais (Lei de 2012 sobre a assistência jurídica), nomeadamente através da criação de uma unidade de assistência jurídica junto do Ministério da Justiça; ✓ A criação de uma unidade especial no Ministério Público encarregada da questão dos menores em conflito com a lei; 45
✓ A existência de um serviço de inspecção dos serviços judiciais; ✓ São envidados esforços para assegurar que o acusado seja apresentado a um juiz no prazo de 24 horas após o encaminhamento do processo pelo procurador; ✓ Os casos de flagrante delito são julgados no mesmo dia; ✓ Os advogados do país são alegadamente bem instruídos sobre a Comissão e a Carta, bem como sobre outros instrumentos de direitos humanos porque, por um lado, o número dos formados localmente ultrapassa os formados no estrangeiro e, por outro lado, as faculdades de direito do país (pelo menos três) oferecem cursos de direitos humanos nos seus programas de formação; Polícia ✓ A detenção sob custódia policial é limitada a um máximo de 72 horas e o período de detenção preventiva não deve em caso algum exceder 90 dias; ✓ A Polícia está espalhada por todo o país, tornando este serviço público acessível a todas as populações; ✓ Os direitos humanos são uma parte integrante do programa de formação da Polícia; ✓ Autonomia da Polícia Judiciária a nível técnico no que diz respeito às investigações; ✓ Os direitos humanos devem ser respeitados pelos seus serviços e que os agentes recrutados através do concurso da função pública recebam formação sobre a questão como parte do seu curso para se tornarem operacionais como membros da Polícia Judiciária; ✓ Esforços para evitar violações dos direitos humanos no exercício da missão dos seus serviços, trabalhando, por exemplo, para não ter de deter pessoas acusadas nas celas inadequadas da sua instituição; ✓ A Polícia Judiciária de São Tomé e Príncipe tem uma brigada dedicada a tratar de questões de menores e mulheres; 46
✓ Os quadros superiores são formados através de parcerias com Portugal, Rússia, Moçambique e Angola. Estas formações incluem módulos sobre direitos humanos; ✓ O recrutamento e a formação em curso privilegiam as mulheres, que estão subrepresentadas nesta instituição; ✓ Desde 2015, tem havido uma evolução positiva na percepção que os cidadãos têm da polícia, que é a principal responsável pela manutenção da ordem; Prisões ✓ A prisão de São Tomé fornece 3 refeições por dia a 200 reclusos (incluindo 5 mulheres), e para o conseguir, é praticada a agricultura, bem como a avicultura e a criação de outros animais; ✓ Os homens são detidos separadamente das mulheres e segundo as altas autoridades responsáveis pela prisão, as Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Prisioneiros (Regras Nelson Mandela) são respeitadas; ✓ Existem actividades geradoras de rendimentos para os presos, bem como formação académica e profissional voluntárias; ✓ São efectuadas visitas por magistrados para verificar as condições de detenção; Liberdade de expressão, acesso à informação e os meios de comunicação ✓ Existência de uma proposta de lei sobre o acesso à informação na qual a Plataforma da Cidadania tem trabalhado; ✓ Existe uma relativa liberdade de expressão e de acesso à informação comparativamente à situação entre o regime actual e o anterior; ✓ Há uma televisão pública nacional e uma rádio pública nacional que têm a maior cobertura do território; ✓ Existe apenas uma televisão privada e está online; 47
✓ Existe apenas um jornal privado, duas estações de rádio privadas, uma das quais é a estação de rádio católica; esta situação levou a uma proliferação de meios de comunicação online; ✓ Existem estações de rádio comunitárias que operam em condições legais e regulamentares precárias; ✓ Existência da lei n° 2/93 de 8 de Abril de 1993 sobre a imprensa, alterada pela lei n° 3/96 de 20 de Junho de 1996; Acção da sociedade civil e cooperação entre os actores dos direitos humanos ✓ Existência de uma Federação de ONG e Organizações da Sociedade Civil mostrando um certo dinamismo; incluindo a colaboração com o Ministério da Justiça em várias questões de interesse comum, incluindo a elaboração de relatórios periódicos; ✓ As ONG e as Organizações da Sociedade Civil participam na elaboração de relatórios periódicos no âmbito das relações cordiais que mantêm com a Direcção encarregada dos Direitos Humanos no Ministério da Justiça; ✓ A acção da Cruz Vermelha no domínio da ajuda social, principalmente com os idosos, a sua assistência às vítimas dos incêndios; ✓ As excelentes relações de cooperação e colaboração que existem entre a Câmara Municipal e o Centro Social Mãe Clara; ✓ O Centro Social Mãe Clara é uma instalação impressionante tanto em termos das suas infraestruturas como dos serviços sociais que presta à comunidade em que está localizada e a todo o país; ✓ A Casa dos Pequeninos e as suas actividades em benefício dos seus residentes e outros beneficiários; Mulheres, crianças, deficientes, idosos e jovens ✓ Existência de uma resolução da Assembleia da República que exige uma representação de mulheres de pelo menos 30% ao nível das entidades para concorrerem a lugares na Assembleia da República. A resolução acima 48
mencionada deve ser incluída na lei eleitoral de acordo com o projecto de revisão da lei eleitoral e também, existe uma lei sobre a paridade em preparação; ✓ Os esforços holísticos que visam lutar contra a violência doméstica, violência baseada no género e abuso de menores, incluindo a aplicação de legislação adequada, a criação de estruturas e instituições para este fim, incluindo o centro de aconselhamento sobre violência doméstica/conjugal, a criação de linhas telefónicas gratuitas, campanhas de sensibilização, incluindo a campanha “laço verde” contra o abuso de menores, violência doméstica, gravidez precoce, consumo de drogas e outros crimes baseados no género, etc; ✓ A luta contra o desemprego através da instituição de uma Direcção de Empreendedorismo dentro do Ministério, a criação de um Instituto da Juventude, o estabelecimento, com a ajuda de parceiros de desenvolvimento, de um programa chamado “ela” em benefício das jovens raparigas do sector empresarial; ✓ Tendo presente que 70% da população é muito jovem, que 51% são mulheres e 49% são homens, o governo favorece os projectos de empreendedorismo para jovens e mulheres; ✓ A pasta ministerial para a juventude é confiada a um jovem; ✓ Os esforços para assegurar a participação da juventude na governação e nos assuntos públicos, conforme evidenciado pelo facto de o parlamento do país ter actualmente 20% de jovens tanto do partido no poder como da oposição, e de o membro mais jovem do parlamento na altura da missão ter 30 anos de idade; do mesmo modo, existe um projecto de criação de um parlamento de jovens para os países de língua portuguesa para debater questões que preocupam os jovens desses países; ✓ Os esforços na área da saúde e educação, incluindo os relacionados com o VIHSIDA com uma taxa de prevalência relativamente baixa e em declínio, a disponibilidade de medicamentos anti-retrovirais gratuitos, e a elevada taxa de matrículas escolares, que está a aumentar; ✓ A existência de uma cadeia de solidariedade social para com as pessoas vulneráveis, como as crianças, os deficientes e os idosos. Esta cadeia de solidariedade é notável pela existência de estruturas socioeconómicas como o centro Mãe Clara, a Casa dos Pequeninos, o Lar de Idosos e várias outras iniciativas que visam assegurar que estas pessoas recebam a atenção que a sua vulnerabilidade exige, a fim de lhes permitir levar uma vida digna como todas as outras; 49
✓ O facto de a taxa de registo de nascimento ser agora de 96,4% e de estarem previstas sanções para os casos de nascimentos não registados mais de um ano após a sua ocorrência; ✓ O facto de o presidente da câmara do distrito de Lemba ter colocado a questão da protecção das crianças no centro das suas acções de governação; ✓ Existência de uma lei sobre o acesso à terra que prevê a igualdade de acesso à terra para homens e mulheres; ✓ Existência de uma lei pendente de promulgação sobre os direitos das pessoas deficientes; Esforços no Sector do Turismo ✓ Os esforços para combater a criminalidade e outras questões prejudiciais ao turismo, que é uma importante fonte de rendimento para o país e a sua população; há o exemplo da sensibilização iniciada desde finais de Setembro de 2019 em Neves sobre os efeitos nocivos do turismo, e o profissionalismo e eficiência das forças de segurança no domínio do turismo e as discussões em curso com o Ministério da Justiça para tornar mais severas as sanções penais relacionadas com os delitos relacionados com o turismo, a fim de combater o crime prevalecente neste domínio; ✓ O recurso à cooperação internacional para um maior desenvolvimento do sector turístico, como o projecto-piloto financiado por Portugal que visa a construção de hotéis, a renovação de edifícios antigos ou históricos a fim de proporcionar à indústria do turismo mais infraestruturas para o seu pleno desenvolvimento; Saúde e Luta contra o HIV ✓ Existência de uma estratégia nacional de saúde; ✓ A luta contra a malária está quase ganha, uma vez que não houve mortes por esta doença desde 2014; São Tomé está a considerar a adopção de uma lei para punir as pessoas que obstruem a pulverização como parte da luta para erradicar a malária; o diagnóstico e tratamento são gratuitos para a malária; os casos de 50
hospitalização por malária estão drasticamente reduzidos, ou mesmo inexistentes, ao contrário do que acontecia no passado; ✓ A cobertura do território nacional em termos de infraestruturas sanitárias é considerada boa, com hospitais em todos os distritos, centros de saúde comunitários e postos de saúde; ✓ O país tem 148 médicos nacionais; ✓ A vacinação é realizada porta-a-porta; ✓ A existência de programas relacionados com a saúde das mulheres grávidas, VIH e cuidados gratuitos é aplicada a mulheres grávidas, crianças com menos de cinco anos de idade e idosos indigentes; ✓ Em relação ao VIH, existe uma lei e um programa para erradicar esta pandemia, cuja taxa de prevalência em São Tomé é de 1,5%, e os medicamentos antiretrovirais para mulheres grávidas são fornecidos gratuitamente em casa por profissionais de saúde; há cuidados de saúde públicos em caso de violação para prevenir o VIH e gravidez indesejada (administração da pílula do dia seguinte); há distribuição gratuita de preservativos e outros contraceptivos; ✓ A estratégia nacional de saúde com algumas das suas componentes, tal como apresentada acima, é apoiada pela OMS e pela UNICEF. Direitos económicos, sociais e culturais ✓ A elevada e crescente taxa de matrículas; ✓ Ensino primário gratuito; ✓ Promoção da educação através da construção de infraestruturas escolares que visam a educação universal, a distribuição de kits escolares, o ensino primário gratuito e a aplicação de uma taxa irrisória de um dólar pela matrícula no ensino secundário, a concessão de bolsas de estudo a alunos cujas mães são indigentes a fim de encorajar a sua escolaridade; 51
✓ A assistência considerável da UNICEF ao sistema educativo; por exemplo, pagando a taxa de um dólar pela inscrição no ensino secundário, que ainda não está acessível a alguns pais pobres; ✓ Existência de programas do Ministério da Agricultura em benefício dos agricultores, tais como a disponibilidade de crédito aos agricultores; II. ÁREAS DE PREOCUPAÇÃO 202. Apesar dos progressos registados, a delegação da Comissão deparou-se com alguns desafios que dificultam a plena realização e gozo dos direitos humanos, a saber: Recursos financeiros, humanos e infraestruturas • A indisponibilidade, insuficiência e escassez de recursos financeiros necessários à política económica, social e de desenvolvimento em todos os sectores da vida do país e das populações de São Tomé e Príncipe, que paralisa todas as iniciativas e outros projectos ou programas sobre direitos humanos ou que deveriam ter um impacto positivo sobre os mesmos; • A insuficiência de infraestruturas socioeconómicas que permitem à população desfrutar plenamente dos seus direitos humanos, tais como o direito à justiça, à saúde e outros, especialmente para os mais vulneráveis que enfrentam o problema da acessibilidade a estas infraestruturas demasiadas vezes longe do seu local de residência; O quadro normativo geral e a dinâmica entre os poderes • • • Quase todos os textos legais que constituem a base da legislação aplicável em São Tomé devem ser objecto de reforma e adaptados às realidades do país no momento actual e não permanecer como eram durante a era colonial; Dificuldades políticas entre os poderes executivo e legislativo, tal como mencionado pelo presidente da Assembleia Nacional; O país está em crise e isto reflecte-se em todas as alavancas e estruturas responsáveis pela promoção e protecção dos direitos humanos, práticas democráticas e boa governação; 52
• • A Cruz Vermelha não quer interferir nos assuntos internos do país, nem sente a necessidade de o fazer; O problema da falta de continuidade na administração, que impede a consolidação das realizações; Ratificação dos instrumentos internacionais em matéria de direitos humanos e cooperação com a Comissão; • A não apresentação por São Tomé e Príncipe dos seus relatórios iniciais e periódicos à Comissão desde a sua adesão à Carta; isto deve-se aos recursos limitados do país e à ausência de um mecanismo permanente de apresentação de relatórios aos órgãos do tratado; • A não-participação de São Tomé e Príncipe nas actividades da Comissão, incluindo as suas sessões ordinárias; Barreiras culturais e tradicionais • • Ocorrem numerosos acordos fora do quadro formal e democrático, em detrimento dos direitos humanos e dos princípios democráticos; A persistência de influências costumeiras, tradicionais e religiosas dificulta os esforços para promover e proteger os direitos humanos; • A cultura e as tradições constituem um dos obstáculos ao trabalho em curso para a promoção e protecção dos direitos humanos em geral, mas especificamente os das crianças e das mulheres; INDH • São Tomé e Príncipe não tem uma INDH e as discussões para estabelecer tal instituição estão bloqueadas na escolha entre a fórmula clássica da INDH e um Gabinete do Provedor de Justiça da República; Justiça • A crise a nível do poder judiciário e sobretudo no Supremo Tribunal com as alegações do seu presidente de que a separação de poderes não é uma realidade no país; • O Conselho Superior da Magistratura não funciona correctamente e não é autónomo por causa das condições financeiras; 53
• • • • • • • O défice de 4 juízes no Supremo Tribunal, que actualmente tem apenas 4 juízes, ao passo que a lei prevê que este tribunal seja composto por 8 juízes; A ausência de mulheres no Supremo Tribunal do país; O distanciamento da justiça da população (de facto, é necessário viajar para a capital para ter acesso à justiça); as pessoas que vivem em zonas rurais têm dificuldade em ter acesso à justiça porque geralmente têm de vir de muito longe. Idealmente, deveria haver pelo menos 5 regiões judiciais; Ainda não existe no país uma formação formal e sistemática na profissão de advogado; O não pagamento durante 3 anos consecutivos dos montantes devidos pelo Estado à Ordem a título de compensação pela assistência jurídica prestada por esta última e, portanto, a suspensão deste serviço pela Ordem; Diz-se que o sistema judicial do país é politizado ao ponto de todos os níveis de jurisdição serem afectados por este estado de coisas; Os outros desafios da administração da justiça, nomeadamente o número insuficiente de pessoal judicial, a qualidade da formação de alguns dos seus profissionais, as más condições de serviço; • A prática da justiça popular; Polícia • A insuficiência de pessoal policial e as numerosas carências de instrumentos adequados para levar a cabo a missão da polícia nacional e da polícia judiciária; para além do facto de as mulheres representarem apenas 1% dos efectivos; • O respeito rigoroso do prazo legal de custódia policial é difícil, segundo o procurador-adjunto; • A ausência de uma escola ou academia de polícia no país; • Sobre a questão da droga, a polícia observa que o país é um local de trânsito; • Violência ligada ao consumo excessivo de álcool; Prisões • As condições carcerárias ainda não cumprem as normas internacionais na medida em que a delegação constatou problemas de superlotação, decência do ambiente de vida na prisão, cujas infraestruturas e equipamentos estão degradados; 54
• A ausência de uma ambulância para evacuar os prisioneiros em caso de necessidade quando são admitidos na clínica da prisão, a falta de medicamentos e a ausência de um médico na clínica, que tem apenas duas enfermeiras e dois auxiliares de saúde, etc. • Nas entrevistas improvisadas, a delegação pôde recolher queixas dos prisioneiros, alguns dos quais disseram ter sido maltratados e espancados. A má qualidade dos alimentos oferecidos pela prisão foi também mencionada, e alguns reclusos disseram não querer falar por medo de represálias; • No caso de uma prisioneira ser admitida, a prisão militar, que não possui celas para prisioneiras femininas, será adaptada em conformidade; Liberdade de expressão, acesso à informação e aos meios de comunicação • A regressão da participação cívica devido ao medo de falar sobre assuntos públicos; • A inexistência de uma lei sobre o acesso à informação; • Os meios de comunicação social são politizados, e os meios de comunicação social partidários podem ser claramente identificados pelo conteúdo dos seus órgãos de imprensa; • Não existe um organismo regulador para a imprensa escrita; • As condições de emprego dos jornalistas são muito más e isto tornou-os demasiado vulneráveis; em consequência, os jornalistas não respeitam a ética aplicável a maior parte do tempo; • Os profissionais dos meios de comunicação são aproximadamente 100 e não estão adequadamente formados, ao ponto de as pessoas exercerem esta profissão devido à falta de empregos e as pessoas qualificadas para esta profissão estarem noutros sectores devido à falta de atractividade da profissão; • Para além do acima exposto, a delegação tomou conhecimento de que os meios de comunicação social são altamente politizados e não-profissionais. • A delegação notou a existência de uma lei sobre a imprensa que as partes interessadas com as quais reuniu demonstraram o seu desejo de ver revista. 55
Mulheres, crianças, deficientes, idosos e jovens • A baixa representação das mulheres em cargos de decisão; • • A existência do turismo sexual e os seus abusos contra crianças e mulheres; A elevada prevalência de abuso de menores, violência doméstica, gravidez precoce, consumo de drogas e outros crimes baseados no género; apesar dos esforços empreendidos pelas partes interessadas; • Não existe legislação específica relativa aos idosos em São Tomé e Príncipe; • Não existem escolas especiais para pessoas com deficiência; • Foi elaborada uma lei sobre os direitos das pessoas com deficiência, mas ainda não está promulgada e, por conseguinte, ainda não é aplicável; • As pessoas com deficiência sentem-se marginalizadas e sem representatividade na esfera pública e social. Esta situação leva a uma falta de acesso ao emprego para pessoas com ou sem formação. Foi também levantada a questão da ratificação dos tratados que lhes dizem respeito; Direitos económicos, sociais e culturais • A ausência de segurança social nacional; • A falta de médicos especialistas torna impossível o tratamento local de todas as patologias; • A prevalência do desemprego. O desenvolvimento do turismo • A falta de apropriação pelas populações locais da questão do turismo para que os benefícios socioeconómicos desta actividade possam ser-lhes transmitidos; • A falta de formação dos profissionais do sector do turismo e a ausência de uma escola de hotelaria em São Tomé e Príncipe; • A falta de dados estatísticos precisos sobre o sector do turismo em São Tomé e Príncipe; • Violência no sector do turismo, inclusive contra turistas. 56
TERCEIRA PARTE : RECOMENDAÇÕES 203. Como resultado da missão e tendo em conta os desafios identificados, a Comissão é de opinião que o povo de São Tomé e Príncipe e os seus líderes devem estar inequívoca e incondicionalmente empenhados e envolvidos no processo de reforma em curso com vista a forjar uma nova era, mais democrática e pacífica para São Tomé e Príncipe. 204. A Comissão exorta todas as partes interessadas a esforçarem-se por reduzir o impacto negativo dos costumes, tradições e práticas culturais, atitudinais ou religiosos no gozo dos direitos humanos no país. 205. A Comissão formula ainda as seguintes recomendações: • Ao Governo Recursos financeiros, humanos e infraestruturas i. Utilizar todos os meios adequados, incluindo a angariação de fundos de doadores internacionais, públicos e privados, optimizar a gestão das finanças públicas e dos recursos naturais, incluindo os novos ganhos provenientes do petróleo descoberto recentemente, para fornecer ao país os recursos financeiros e humanos e as infraestruturas que faltam para a implementação de uma política favorável à protecção e promoção dos direitos humanos no país; O quadro normativo geral e a dinâmica entre os poderes ii. Integrar a promoção e protecção dos direitos humanos e dos povos em todas as suas acções e especialmente nas reformas legais, políticas e institucionais que se 57
iii. iv. v. vi. vii. tornaram uma necessidade a ser abordada sem demora, tal como indicado pelas partes interessadas com as quais a delegação se reuniu durante a missão; Acelerar todos os processos relacionados com a adopção de quadros jurídicos essenciais em conformidade com as obrigações internacionais de São Tomé e Príncipe; Trabalhar no sentido de resolver através do diálogo e do consenso baseado em princípios democráticos e na boa governação, as dificuldades políticas entre os poderes executivo e legislativo, tal como mencionado pelo presidente da Assembleia Nacional; Trabalhar para pôr definitivamente termo à prolongada e permanente crise na situação política do país; Realizar debates profundos na esfera política, a fim de evitar a tensão entre os actores relevantes em relação à sua capacidade de participar, mesmo numa base apolítica e humanitária, no bem-estar geral da população, mas especialmente das pessoas mais vulneráveis; Trabalhar para assegurar a continuidade da administração para que as conquistas não se percam com mudanças nas equipas governamentais; Ratificação dos instrumentos internacionais em matéria de direitos humanos e cooperação com a Comissão; viii. Apresentar os seus relatórios iniciais e periódicos pendentes, em conformidade com o artigo 62.º da Carta e o artigo 26.º do Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os Direitos das Mulheres em África; ix. Materializar a ideia de incluir no orçamento geral do Estado as actividades de participação nos trabalhos da Comissão e a obrigação de apresentação de relatórios periódicos; x. Estabelecer um mecanismo permanente responsável por assegurar que São Tomé e Príncipe cumpra as suas obrigações em matéria de apresentação de relatórios aos órgãos convencionais; xi. Utilizar todos os meios disponíveis, incluindo a cooperação internacional e os conhecimentos especializados, para fazer face aos recursos limitados disponíveis no que respeita à apresentação de relatórios aos órgãos convencionais; 58
INDH xii. Tomar uma decisão definitiva em relação à criação de uma INDH ou de um Gabinete do Provedor de Justiça; xiii. Estabelecer e operacionalizar o tipo de instituição escolhida pelo país, fornecendo os recursos necessários para o seu funcionamento eficaz e eficiente e trabalhar com a Comissão no que concerne à elaboração de um plano de acção nacional para os direitos humanos; Justiça xiv. Travar de forma definitiva a crise a nível do poder judiciário e sobretudo no Supremo Tribunal, a fim de pôr termo à percepção da ineficácia da separação de poderes e da politização da justiça, tal como sentida pelas mais altas autoridades; xv. xvi. xvii. xviii. xix. xx. xxi. Assegurar que o Conselho Superior da Magistratura funcione correctamente, fornecendo-lhe os recursos financeiros adequados; Dotar o Supremo Tribunal de quatro juízes em falta, com vista a alinhar a sua composição com a lei; Assegurar que a composição do Supremo Tribunal inclua mulheres para cumprir os requisitos da integração da perspectiva de género; Assegurar que a distribuição geográfica da instituição judicial permita o acesso à mesma para aqueles sujeitos a julgamento que já não deveriam ter de viajar para a capital para ter acesso à justiça; idealmente, deveriam ser criadas pelo menos 5 regiões judiciais; Estabelecer uma formação formal e sistemática para a profissão de advogado no país; Pagar sem demora os pagamentos em atraso das somas devidas pelo Estado à Ordem como compensação pela assistência jurídica prestada por esta última e assegurar que este serviço pela Ordem seja retomado imediatamente; Dotar o poder judiciário de recursos humanos e materiais de qualidade que lhe permitam funcionar em conformidade com as obrigações internacionais do país, com pessoal suficiente e eliminar o atraso dos processos; xxii. Lutar contra a prática da justiça popular através da sensibilização e restabelecimento da confiança entre a população e o serviço público de justiça; 59
Polícia xxiii. Dotar a polícia de pessoal suficiente e de instrumentos adequados para levar a cabo as missões policiais gerais e judiciais; xxiv. Trabalhar no sentido de uma maior inclusão do género na força policial em benefício das mulheres que se encontram gravemente sub-representadas a nível dos efectivos; xxv. Assegurar o respeito rigoroso do prazo legal para a custódia policial; xxvi. Estabelecer uma escola ou academia de Polícia no país; xxvii. Equipar adequadamente a Polícia para lutar de forma eficaz contra a droga, da qual o país é um ponto de trânsito, e também contra a violência ligada ao consumo excessivo de álcool; xxviii. Introduzir uma formação regular em direitos humanos para os agentes a todos os níveis; Prisões xxix. Trabalhar no sentido de melhorar as condições carcerárias às normas internacionais ao construir uma nova prisão adequada o mais rapidamente possível e, entretanto, abordar a questão da superlotação através da aplicação de penas alternativas, tais como o serviço comunitário, e da limpeza das infraestruturas prisionais; xxx. Dotar a prisão de uma ambulância para evacuar os prisioneiros em caso de necessidade quando são admitidos na clínica da prisão, medicamentos e um médico permanente para a clínica; xxxi. Investigar imediatamente a alegada prática de maus-tratos e espancamento de prisioneiros, a fim de tomar as medidas necessárias; xxxii. Disponibilizar à prisão militar celas especialmente equipadas para prisioneiras do sexo feminino; xxxiii. Melhorar as condições de trabalho e as instalações de todos os agentes prisionais; 60
xxxiv. Adoptar medidas para assegurar que todos os detidos comuniquem regularmente com as suas famílias, embaixadas e facilitar o acesso regular das ONG e OSC às prisões; xxxv. Respeitar as normas e os princípios relativos às prisões e aos centros de detenção estabelecidos nas Directrizes e Medidas para a Proibição e Prevenção da Tortura e Tratamento ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes em África (Directrizes de Robben Island); xxxvi. Criar condições para uma formação contínua do pessoal prisional sobre questões direitos humanos; Liberdade de expressão, acesso à informação e aos meios de comunicação xxxvii. Trabalhar para restaurar a confiança dos actores da sociedade civil no processo de governação para que possam participar sem medo, de acordo com o seu papel como actores-chave no espaço cívico; xxxviii. Adoptar uma lei sobre o acesso à informação; xxxix. Criar as condições para um espaço mediático e para os profissionais do sector comprometidos com a ética e deontologia aplicáveis; xl. Criar um organismo regulador para os meios de comunicação impressos; xli. Rever a lei de imprensa para a alinhar com as normas internacionais; Mulheres xlii. Adoptar uma lei que preveja uma quota de 50% para as mulheres em todos os cargos de decisão; xliii. Empreender acções de sensibilização e educação cívica e fornecer incentivos para que as mulheres assumam papéis de liderança e concorram a cargos públicos; xliv. Reformar leis, sistemas e regulamentos para remover barreiras às mulheres em todos os sectores da sociedade; xlv. Suprimir de forma eficaz a prática do turismo sexual e as suas violações dos direitos das mulheres; xlvi. Suprimir de forma eficaz a violência doméstica e ser proactivo na abordagem desta questão social; 61
xlvii. Rever as leis e os sistemas de propriedade da terra para aumentar a propriedade das mulheres e o acesso à terra; xlviii. Aumentar as actividades económicas das mulheres e assegurar que elas tenham acesso ao financiamento para apoiar as suas actividades de subsistência; Crianças e Jovens xlix. Suprimir de forma eficaz a prática do turismo sexual e o seu abuso de crianças; l. Abordar de forma mais eficaz a questão da elevada prevalência do abuso infantil, da gravidez precoce, do consumo de drogas e outros crimes baseados na vulnerabilidade das crianças e dos jovens; li. Combater mais eficazmente o desemprego e o consumo abusivo de álcool e drogas; Pessoas com deficiência e idosas lii. Adoptar legislação específica relativa aos idosos em São Tomé e Príncipe; liii. Assegurar a promulgação da lei que foi elaborada sobre os direitos das pessoas com deficiência; liv. Criar escolas especiais para pessoas com deficiência e assegurar uma educação inclusiva para pessoas portadoras de deficiência, lv. Assegurar a inclusão de pessoas com deficiência em todas as áreas da vida e especialmente a sua representação na esfera pública e social; lvi. Resolver a dificuldade de acesso ao emprego das pessoas com deficiência; lvii. Ratificar o mais rapidamente possível os Protocolos sobre os Direitos das Pessoas Idosas e das Pessoas com Deficiência; Direitos económicos, sociais e culturais lviii. lix. lx. Estabelecer um sistema nacional de saúde e segurança social; Continuar os esforços na luta contra o VIH; Trabalhar na formação de médicos especialistas nacionais 62
O desenvolvimento do turismo lxi. lxii. lxiii. lxiv. • lxv. Sensibilizar para o valor do turismo para o bem-estar da população, para que se apropriem desta actividade para beneficiar dos efeitos socioeconómicos desta actividade; Formar profissionais do sector do turismo e criar uma escola de hotelaria em São Tomé e Príncipe; Trabalhar para ter dados estatísticos precisos e actualizados sobre o sector do turismo em São Tomé e Príncipe; Pacificar o sector do turismo, combatendo eficazmente a violência inerente do sector. À sociedade civil: Realizar acções de sensibilização junto de todos os grupos da população para lhes permitir conhecer os seus direitos fundamentais e reivindicá-los sempre que necessário; lxvi. Envolver-se de forma construtiva com o Governo e as partes interessadas relevantes para participar em todas as reformas e para manter a relação de colaboração que deve existir entre as principais partes interessadas em matéria de promoção e protecção dos direitos humanos; lxvii. Para aqueles que ainda não o tenham feito, tomar as medidas necessárias para obter o estatuto de observador junto da Comissão, e para as ONG com esse estatuto, cumprir os direitos e obrigações daí decorrentes, nomeadamente apresentar o seu relatório de actividades à Comissão, em conformidade com a sua resolução sobre o estatuto de observador; • À comunidade internacional e aos parceiros: 63
lxviii. A comunidade internacional e os parceiros internacionais devem ajudar o Governo a mobilizar o apoio humano, financeiro, técnico e logístico necessário para as reformas necessárias; lxix. O Banco Mundial, a União Europeia, as Nações Unidas e o Banco Africano de Desenvolvimento devem assegurar que o seu apoio ao governo seja substancial e duradouro; lxx. Apoiar a agenda de reformas do Governo, particularmente no que diz respeito à protecção dos direitos humanos e dos sectores da justiça e da segurança; lxxi. Ajudar o Governo a empenhar-se na elaboração de um plano de acção nacional de direitos humanos e a cumprir as suas obrigações de apresentação de relatórios aos órgãos convencionais. 206. Em conclusão, embora assegurando a total disponibilidade da Comissão para assistir o Governo em todos os seus esforços relacionados com a promoção e protecção dos direitos humanos e dos povos, apelamos ao Governo para que tome todas as medidas necessárias para implementar as recomendações contidas no presente relatório e para integrar o progresso da sua implementação no seu próximo relatório periódico do Estado apresentado nos termos do artigo 62.º da Carta e do artigo 26.º do Protocolo de Maputo. 64

Created 17 de jun. de 2026 · Edited 7 de jul. de 2026