Relatórios de Missão

Relatório da missão conjunta para a promoção dos direitos humanos na República de Angola de 3 a 7 de Outubro de 2016

PT-Rapport Angola_ 3-7 oct. 2016.doc.pdf
AFRICAN UNION UNION AFRICAINE UNIÃO AFRICANA African Commission on Human & Peoples’ Rights Commission Africaine des Droits de l’Homme & des Peuples 31, Bijilo Layout Annex, Kombo North District, Western Region, P. O. Box 673, Banjul, The Gambia Tel: (220) 4410505/4410506; Fax: (220) 4410504 E-mail: au-banjul@africa-union.org; Website: http://www.achpr.org RELATÓRIO DA MISSÃO CONJUNTA PARA A PROMOÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NA REPÚBLICA DE ANGOLA De 3 a 7 de Outubro de 2016 1
ÍNDICE AGRADECIMENTOS .......................................................................................................................... 4 ACRÓNIMOS E SIGLAS ..................................................................................................................... 5 PARTE I ................................................................................................................................................. 6 I. INTRODUÇÃO ............................................................................................................................ 6 II. TERMOS DE REFERÊNCIA DA MISSÃO ............................................................................... 7 III. CONTEXTOS HISTÓRICO, GEOGRÁFICO E INSTITUCIONAL DA REPÚBLICA DE ANGOLA ............................................................................................................................................... 9 A. PANORAMA HISTÓRICO, SOCIOECONÓMICO E GEOGRÁFICO ...................... 9 A. ESTRUTURA JURÍDICA ...................................................................................................... 9 A. CONVENÇÕES INTERNACIONAIS, REGIONAIS E TEXTOS DE LEI RELATIVOS AOS DIREITOS HUMANOS RATIFICADOS E ADOPTADOS POR ANGOLA .......................................................................................................................................... 9 IV. METODOLOGIA ................................................................................................................... 10 SEGUNDA PARTE ............................................................................................................................. 12 I. PROGRESSO DA MISSÃO ....................................................................................................... 12 ENCONTRO COM O MINISTRO DA JUSTIÇA E DOS DIREITOS HUMANOS .................... 12 REUNIÃO NO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (MIREX) .................................. 14 ENCONTRO COM O MINISTRO DA SAÚDE.............................................................................. 15 ENCONTRO COM A MINISTRA DA FAMÍLIA E PROMOÇÃO DAS MULHERES ............. 17 ENCONTRO COM O PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL ............................................. 21 ENCONTRO COM O PROCURADOR GERAL ............................................................................ 22 ENCONTRO COM O PROVEDOR DE JUSTIÇA.......................................................................... 24 ENCONTRO COM OS MEMBROS DO PRESIDIO DO PARLAMENTO E DA DÉCIMA COMISSÃO, DIREITOS HUMANOS, PETIÇÃO E OPINIÕES DO CIDADÃO ....................... 25 ENCONTRO COM O MINISTRO DO INTERIOR ........................................................................ 27 ENCONTRO COM O MINISTRO DA EDUCAÇÃO .................................................................... 29 ENCONTRO NO MINISTÉRIO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL ............................................... 31 SESSÃO DE TRABALHO COM O PNUD ...................................................................................... 32 VISITA AO INSTITUTO NACIONAL DE LUTA CONTRA O SIDA ........................................ 33 VISITA DA PRISÃO DE VIANA...................................................................................................... 34 VISITA DO CENTRO INDUSTRIAL DA PRISÃO DE VIANA................................................... 35 VISITA AO HOSPITAL PENITENCIÁRIO DE SÃO PAULO ..................................................... 35 ENCONTRO COM A SOCIEDADE CIVIL .................................................................................... 36 TERCEIRA PARTE ............................................................................................................................. 39 2
I. OBSERVAÇÕES E ANÁLISE DA SITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EM ANGOLA ............................................................................................................................................. 39 A. ÁREAS DE PREOCUPAÇÃO .................................................................................................. 41 II. CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES................................................................................... 43 3
AGRADECIMENTOS A Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (a Comissão) gostaria de expressar a sua gratidão ao Governo da República de Angola por ter autorizado a missão conjunta para a promoção dos direitos humanos por uma Delegação da Comissão dos Direitos humanos, de 3 a 7 de Outubro de 2016. A Comissão expressa os seus sinceros agradecimentos às mais altas autoridades do país por terem disponibilizado à Delegação todas as instalações necessárias e o pessoal necessário para a boa execução da missão. Expressou os seus agradecimentos e, em particular, a sua profunda gratidão ao Ministério das Relações Exteriores (MIREX) pela organização da missão. A Comissão gostaria igualmente de agradecer às várias instituições nacionais, organizações internacionais e intergovernamentais por terem aceitado encontrar-se com a Delegação e por terem facultado informações úteis sobre a situação dos direitos humanos na República de Angola. 4
ACRÓNIMOS E SIGLAS CADHP SIDA FAO ONG PNUD UNICEF : Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos : Síndrome da Imunodeficiência Adquirida :Organização das Nações Unidas para Alimentação Agricultura : Organização Não Governamental : Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e : Fundo das Nações Unidas para a Infância 5
PARTE I I. INTRODUÇÃO 1. A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (Carta Africana), adoptada em 21 de Junho de 1981 pela Assembleia de Chefes de Estado e de Governo em Nairóbi, Quénia, entrou em vigor em 21 de Outubro de 1986. Os artigos 30. o e seguintes estabelecem que a Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos (a Comissão) representa até hoje a principal entidade para a promoção dos direitos humanos da União Africana (UA). 2. De acordo com o Artigo 45.o da Carta Africana, o mandato da Comissão Africana é promover e proteger os direitos humanos e as liberdades fundamentais garantidas pela Carta, e monitorar a sua implementação. Interpretar as suas disposições e emitir pareceres jurídicos a pedido da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo. 3. Além disso, deve reunir documentação, estudos, realizar pesquisas sobre problemas africanos na área dos direitos humanos e dos povos, organizar seminários, simpósios e conferências, disseminar informações, incentivar organismos nacionais e locais que lidam com os direitos humanos e dos povos. 4. É no quadro da implementação deste mandato da Comissão que a Ilustre Dep. Comissário Pansy Tlakula, Presidente da Comissão, e Relatora Especial sobre a Liberdade de Expressão e Acesso à Informação em África (Chefe da delegação) liderou uma missão conjunta para promover os direitos humanos na República de Angola, de 3 a 7 de Outubro de 2016 com a Ilustre Comissária Soyata Maiga, Vice-Presidente da Comissão, Presidente do Comité para a Protecção dos Direitos das Pessoas que Vivem com o VIH (PVVIH) e pessoas em risco, vulneráveise afectadas pelo VIH e Presidente do Grupo de Trabalho sobre povos / comunidades indígenas. A delegação da Comissão foi acompanhada pela Sra. Estelle Nkounkou Ngongo, jurista do Secretariado da Comissão. 6
II. 5. TERMOS DE REFERÊNCIA DA MISSÃO O objectivo geral da visita é inquirir sobre a situação dos direitos humanos do povo angolano e dar seguimento às recomendações feitas em relação à apresentação do relatório periódico combinado da República de Angola à Comissão Africana, na sua 51.ª Sessão Ordinária realizada de 18 de Abril a 2 de Maio de 2012 em Banjul, Gâmbia. A Delegação deverá: • Promover a Carta Africana, o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os Direitos da Mulher (Protocolo de Maputo) e outros instrumentos jurídicos regionais e universais de direitos humanos; • • Defender a ratificação de instrumentos legais regionais e internacionais de direitos humanos ainda não ratificados por Angola; Iniciar um diálogo com o Governo sobre medidas legislativas e outras tomadas para dar pleno efeito às disposições da Carta Africana, do Protocolo de Maputo e de outros instrumentos regularmente ratificados; • Trocar pontos de vista e partilhar experiências com o Governo angolano, bem como com outros actores que trabalham na área dos direitos humanos no país, em estratégias para melhorar o usufruto destes direitos; • Reunir informações relevantes sobre o nível de gozo dos direitos das mulheres e raparigas, bem como os obstáculos que enfrentam no exercício desses direitos, nos campos jurídico, político, social, económico e cultural; Investigar as leis, planos, políticas e programas adoptados pelo EstadoParte para dar efeito às disposições da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e do Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os Direitos das Mulheres em África (Protocolo de Maputo), e identificar medidas de acção positiva que impactam na vida das mulheres e, quando apropriado, desafios persistentes; Envolver-se num diálogo construtivo com o governo sobre a questão do direito à liberdade de expressão e acesso à informação; Discutir com as partes interessadas sobre a legislação nacional relativa aos grupos de comunicação, as políticas e os programas sobre a liberdade de expressão e acesso a padrões de informação em geral, e a Declaração de Princípios sobre Liberdade de Expressão em África, em particular; Avaliar o impacto do VIH / SIDA no país e pedir informações às autoridades e outras partes interessadas envolvidas na luta contra a pandemia, sobre a legislação, as políticas e outras medidas em vigor para a prevenção, o tratamento, cuidados e apoio a pessoas vivendo com VIH (PVVIH) e pessoas em risco, vulneráveis e afectadas pelo VIH; Apresentar uma visão geral dos direitos das pessoas que vivem com o VIH (PVVIH) e das pessoas em risco, vulneráveis e afectadas pelo VIH, identificar o progresso feito e os obstáculos que levam ao exercício, bem como o pleno gozo de seus direitos; • • • • • • • Recolher informação sobre a situação dos defensores dos direitos humanos na República de Angola e envolver as várias partes interessadas na compreensão dos problemas, se houver, que impedem o gozo efectivo dos seus direitos; Reunir informações relevantes sobre a situação dos direitos das comunidades indígenas, 7
• • • • dos idosos, das pessoas portadoras de deficiência, das pessoas em detenção e outras categorias de pessoas vulneráveisque vivem na República de Angola; Visitar prisões e outros centros de detenção para aprender sobre as condições carcerárias dos detidos; Encontrar todos os actores envolvidos no campo dos direitos humanos, a fim de partilhar, entre outros, sobre seus programas, sua apreciação da situação dos direitos humanos no país, bem como as dificuldades encontradas no exercício das suas actividades; Acompanhar a implementação das recomendações formuladas pela Comissão Africana para o Governo angolano, no relatório da missão realizada no país de 19 a 26 Abril de 2010, e nas observações finais aprovadas durante a 12.a Sessão Extraordinária realizada de 30 de julho a 4 de Agosto de 2012 em Argel, Argélia, após a apresentação de seu Relatório Periódico combinado; Fortalecer a relação de colaboração entre a Comiss��o e o Estado Parte no campo da promoção e protecção dos direitos garantidos pela Carta e outros instrumentos legais nacionais, regionais e universais relevantes. 8
III. CONTEXTOS HISTÓRICO, GEOGRÁFICO E INSTITUCIONAL DA REPÚBLICA DE ANGOLA A. PANORAMA HISTÓRICO, SOCIOECONÓMICO E GEOGRÁFICO 6. Angola está localizada na costa oeste da África Austral, com uma área total de 1.246.700 km². É limitada a norte pela República do Congo, a nordeste pela República Democrática do Congo, a leste pela República da Zâmbia, a sul pela República da Namíbia, e é limitada a oeste pelo Oceano Atlântico. 7. O país é dividido em 18 províncias, 163 municípios e 547 concelhos. As línguas faladas são o português (língua oficial), o bantu e outras línguas africanas. Sua população é estimada em 25.789.024 habitantes, dos quais 13.289.983 mulheres e 12.499.041 homens1. O país é composto por diversos grupos etnolinguísticos com tradições culturais específicas. Estes incluem os seguintes grupos: Ovimbundu (37%), Kimbundu (24%), Bakongo (13,2%), Lunda-Tchokwe (5,4%), NyanekaHumbé (5,4%) e Ngangela (5%). 8. A economia do país é baseada na riqueza mineral, incluindo diamantes e minério de ferro. Angola tem reservas de petróleo e é o segundo produtor de petróleo Africano depois da Nigéria. É a segunda maior fonte de diamantes em África depois do Botsuana e a quarta maior do mundo. O país é a quinta maior economia da África, portanto, o padrão de vida mudou pouco, com 40% da população angolana vivendo abaixo do limiar da pobreza. Este problema é uma fonte de grandes disparidades entre os angolanos. Apenas 37,8% dos 21 milhões de habitantes têm acesso à eletricidade. Segundo o Banco Mundial, quase metade da população tem acesso a água potável e apenas 34% nas áreas rurais. A taxa de desemprego a nível nacional é de 24%; os desempregados, especialmente os menores de 25 anos, representam 60% da população. A. ESTRUTURA JURÍDICA 9. Angola é uma república democrática e secular sujeita ao princípio da separação dos poderes executivo, legislativo e judicial. A. CONVENÇÕES INTERNACIONAIS, REGIONAIS E TEXTOS DE LEI RELATIVOS AOS DIREITOS HUMANOS RATIFICADOS E ADOPTADOS POR ANGOLA Instrumentos regionais - A Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos; http://www.cadenagramonte.cu/english/show/articles/24797:angola-with-more-than-25-millioninhabitants1 9
- o Protocolo à Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos sobre os Direitos das Mulheres em África; a Carta Africana da Juventude; a Carta Africana dos Direitos e Bem-estar da Criança; a Convenção da União Africana para a Protecção e Assistência das Pessoas Internamente Deslocadas em África (Convenção de Kampala); a Convenção da OUA que regula os aspetos específicos dos problemas dos refugiados em África; Instrumentos Internacionais - Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais; - Pacto Internacional sobre direitos civis e políticos; - Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres; - Convenção sobre os Direitos da Criança; - Convenção contra a tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, e Protocolo conexo; - Convenção sobre os Direitos das Pessoas portadoras de Deficiência e seu Protocolo facultativo; - Convenção sobre os Direitos da Criança. IV. METODOLOGIA 10. Durante a missão, a delegação reuniu-se com vários representantes do Governo e outros actores envolvidos na protecção e promoção dos direitos humanos em Angola, para trocar ideias e reunir as informações necessárias para avaliar a situação dos direitos humanos no país. 11. As reuniões começaram invariavelmente com uma breve apresentação da Comissão através da sua organização, composição, mandato, funcionamento e mecanismos subsidiários, feita pela Chefe de Delegação em cada encontro como uma introdução.As recomendações formuladas na sequência das missões anteriores de promoção da Comissão e os seus mecanismos na República de Angola, bem como a sua implementação, foram também sujeitos de interesse, largamente discutidos no âmbito da Missão com os diferentes intervenientes. A delegação também discutiu com os vários actores sobre as dificuldades que impedem o pleno gozo dos direitos humanos em Angola. 12. A delegação conversou com suas Excelências os Ministros de Justiça e Direitos Humanos, Saúde, Assuntos Internos, da Educação, assim como da Família e Promoção da Mulher e da Educação. 13. A delegação reuniu-se com a Secretária de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores, o Presidente do Supremo Tribunal, o Procurador Geral da República e o Provedor da República. 10
14. A Delegação teve sessões de trabalho com os membros do presídio do Parlamento Nacional e da Décima Comissão responsável pelos direitos humanos, petições, reclamações e opiniões dos cidadãos, representantes do Ministério da Comunicação Social, o PNUD e a sociedade civil. 15. Fez visitas ao Centro Nacional de luta contra o SIDA, ao hospital prisional de São Paulo e à prisão de Viana e ao seu centro de reintegração. 16. A missão beneficiou da cobertura mediática por meio da imprensa escrita e audiovisual estatal. A missão terminou com uma conferência de imprensa e a leitura do comunicado final da missão. 11
SEGUNDA PARTE I. PROGRESSO DA MISSÃO 17. Esta parte do relatório centra-se nos destaques das reuniões realizadas com os vários intervenientes envolvidos na protecção e promoção dos direitos humanos na República de Angola. ENCONTRO COM O MINISTRO DA JUSTIÇA E DOS DIREITOS HUMANOS 18. A delegação foi recebida pelo Ministro da Justiça e Direitos Humanos, o Dr. Rui Jorge Carneiro Mangueira, e pelo Secretário-Geral, o Dr. Bento Bembe, e por alguns dos seus colaboradores para uma sessão de trabalho e de balanço. Após a introdução dos objectivos da sua missão, começando pelo acompanhamento da implementação das recomendações da missão de 2010 e as formuladas na sequência da apresentação do relatório periódico de Angola em 2012, foram formuladas perguntas sobre os seguintes temas: as estatísticas para avaliar o acesso dos cidadãos à justiça; o número de juízes do sexo masculino e feminino, em comparação com o número de juízes durante a missão de 2010; o programa de treinamento para juízes sobre o uso de instrumentos de direitos humanos; a existência de estatísticas sobre o impacto da Lei de Violência Sexual desde a sua adopção; o tipo de medidas tomadas contra as vítimas, em termos de atendimento psicológico e jurídico. 19. A delegação abordou, em seguida, o processo de registo de ONG em Angola, uma vez que algumas organizações da sociedade civil continuam a ter dificuldades em registar-se. Foram trocadas as razões da inexistência até o momento de uma Comissão Nacional de Direitos Humanos, bem como a situação da liberdade de expressão e incriminação da difamação pela Lei. 20. O Ministro indicou que o Ministério, na sua denominação actual, foi estabelecido apenas há 4 anos atrás. Anteriormente, um outro órgão separado era responsável pelos direitos humanos. Entre outras coisas, a missão do Ministério é facilitar o acesso à justiça para os cidadãos e desenvolver leis sobre várias questões jurídicas. Trabalha em estreita colaboração com a Ordem dos Advogados, que recebe assistência para ajudar os litigantes a recorrer aos tribunais. Na sua opinião, a justiça recorre a acordos extrajudiciais (mediação) para resolver alguns litígios, e foi criado um centro de mediação para esse fim, após a adopção de uma lei que autoriza a resolução de litígios civis por meio desse processo. Também foi criado um centro de informação para os litigantes. 12
21. O Ministro recordou que Angola tinha apresentado os seus relatórios a várias comissões e órgãos de tratados (CEDAW, ECOSOC, PIDCP e EPU) e as discussões sobre a implementação das recomendações da Comissão Africana (missão de 2010 e relatório de 2012) estavam em andamento. O país ratificou certas convenções, inclusive sobre tortura e seu protocolo, sobre os direitos da criança e sobre desaparecimentos forçados. Outras ratificações estão em curso. 22. Em resposta às questões sobre o registo de ONG, o Ministro explicou que algumas ONG não queriam cumprir com os requisitos da nova lei sobre o registo de ONG, incluindo a disposição pedindo-lhes para rever seus estatutos, alinhando-os aos novos critérios exigidos, o que as tornava ilegais. 23. No que diz respeito à criação da Comissão Nacional de Direitos Humanos (CNDH), o ministro indicou que as missões delegadas à CNDH fazem parte dos poderes do Provedor que assume todas as responsabilidades da CNDH. Desse modo, já não era necessário duplicar as funções. Por outro lado, embora o Provedor tenha sido estabelecido pelo Parlamento, era bastante independente. 24. Na sua opinião, a liberdade de expressão foi garantida pela Constituição, mas seu exercício não foi bem compreendido por alguns grupos de comunicação, que tenderam a abusar dela. Apesar disso, ninguém foi detido por difamação ou casos relativos a difamação perante os juízes, apesar das inúmeras queixas aos jornalistas. No entanto, ele insistiu na grande necessidade de educar os cidadãos sobre a liberdade de expressão e as condições de seu gozo. O Estado iniciou um processo de reformas das Leis para adaptá-las à nova Constituição. Foi o Ministério da Justiça que foi encarregado de coordenar a revisão do Código da Família, do Código Civil e da nova lei sobre eleições. 25. No que diz respeito às estatísticas sobre o nível de acesso dos cidadãos ao serviço público de justiça, não estão disponíveis, mas de acordo com ele foram feitos esforços significativos, no que diz respeito ao recrutamento de juízes, cujo número passou, de 119 juízes em 2012 para 332 juízes em 2016. Em geral, cerca de 800 julgamentos foram realizados por ano. O objectivo era aumentar o número de julgamentos de 80 a 100 por juiz. Além disso, o governo pretende criar uma organização em áreas onde não há advogados para permitir que os cidadãos tenham acesso à justiça. 26. Estatísticas sobre o impacto da implementação da lei sobre a violência doméstica ainda não estão disponíveis. E quanto ao combate à violência em geral, não existe nenhuma lei específica sobre o assunto, mas esse aspecto é levado em conta por uma secção da Lei da Criminalidade. 27. O Ministro informou a Delegação que estavam a ser tomadas medidas para resolver os problemas relacionados com a prisão preventiva e que estão a ser implementados meios para assegurar a monitorização da sua implementação, em particular através da reforma das leis, bem como que a adoção de uma nova lei 13
em 2015 sobre as prisões afectando a vida dos prisioneiros. De facto, revisou a estrutura das prisões e o problema da fiança, com o objectivo principal de reduzir a população prisional. O Estado deveria recorrer às orientações da Comissão sobre este tema, em particular as Directrizes sobre as Condições de Detenção, Guarda Policial e Detenção Preventiva em África, Directrizes de Luanda, a caixa de ferramentas2 e as Directrizes sobre as Condições de Detenção, Custódia e Detenção provisória em África3. 28. Acrescentou que a lei de amnistia contribuiria muito para a redução da população carceral, com novas medidas que prevêem a liberação de cerca de 8 mil pessoas. A lei de amnistia deveria ser aplicada apenas a presos que não cometeram crimes de sangue, estupro e não usaram armas, e a aqueles que não estão envolvidos no tráfico de drogas e de seres humanos, com uma sentença inferior a 12 anos. Problemas ainda permanecem no tratamento de prisioneiros. Além disso, o orçamento para as prisões é insuficiente para atender adequadamente às necessidades dos reclusos. 29. De acordo com o ministro, a oposição se recusou a aprovar a adopção do Código da Família e do Código Civil porque queria reformular alguns artigos. Porém, mostrou-se confiante para que até o final do ano, o processo de adopção seja concluído. REUNIÃO NO MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES (MIREX) 30. A delegação foi recebida pela Secretária de Estado da Cooperação do MIREX, Sra. Maria Ángela Teixeira de Alva Sequeira Bragança, com quem discutiu sobre vários temas de interesse, em particular: o estado de ratificação dos instrumentos jurídicos de direitos humanos regionais e internacionais e a implementação daqueles já ratificados; que entidade entre o MIREX e o Ministério da Justiça foi encarregada do processo de ratificação dos tratados de direitos humanos; a representação das mulheres no corpo diplomático; o envolvimento do MIREX na implementação das recomendações feitas a Angola; bem como o funcionamento da Comissão encarregada de elaborar relatórios de estado. 31. Em resposta às preocupações da delegação, a Secretária de Estado em cargo da Cooperação informou que existe uma lei que determina as responsabilidades dos Ministérios no que diz respeito à ratificação. Assim, o processo de ratificação foi iniciado pelo Ministério da Justiça, depois submetido ao Conselho de Ministros e depois à Assembleia Nacional. No entanto, a tradução de vários tratados para o português travou um pouco o processo. Por vezes, observa-se também um considerável lapso de tempo entre a ratificação pelo Parlamento e o depósito de instrumentos de ratificação pelo MIREX. 2 3 http://www.achpr.org/pt/mechanisms/prisons-and-conditions-of-detention/guidelines_arrest_detention/ http://www.achpr.org/pt/mechanisms/prisons-and-conditions-of-detention/guidelines_arrest_detention/ 14
32. Sobre a presença de mulheres no corpo diplomático, a Secretária de Estado disse que havia 3 embaixadoras em organismos internacionais e quase 100 directoras em cargos geopolíticos, além das muitas mulheres que ocupam cargos de liderança em todo o país. 33. Em relação à comissão encarregada pela elaboração dos relatórios, esta era composta por representantes dos diferentes ministérios, mas não era permanente e só se reunia quando era necessário elaborar um relatório. A comissão teve alguns problemas na recolha de dados estatísticos. 34. A Secretária de Estado indicou que a implementação das recomendações após a apresentação do relatório periódico do Estado em 2012 havia sido discutida no comité de redacção do relatório e o MIREX também acompanha a implementação em colaboração com outros departamentos. ENCONTRO COM O MINISTRO DA SAÚDE 35. Durante o encontro com a Sua Excelência o Dr. Luis Gomes Sambo, Ministro da Saúde, e seus colaboradores, as discussões abordaram os seguintes temas: a redução do orçamento da saúde e seu impacto sobre a população, os esforços envidados na formação e recrutamento de novos médicos e enfermeiros, o Plano Estratégico que trata da mortalidade e morbidade materna e infantil, a implementação e avaliação do plano supracitado. 36. Outras preocupações foram centradas nos diferentes programas específicos existentes destinados a idosos e pessoas portadoras de deficiência, a saúde reprodutiva, educação sexual de jovens nas escolas e nas áreas rurais, a avaliação feita pelo Ministério sobre a política relativa à planificação familiar, bem como a política do estado em relação ao aborto medicinal. 37. No tema do VIH / SIDA, a Delegação concentrou-se nas medidas adoptadas para combater a discriminação e o impacto do Programa Nacional Estratégico de luta contra o SIDA, particularmente no atendimento de populações-chave (LGBTI, trabalhadores do sexo e pessoas vulneráveis); as medidas em vigor para lutar contra a discriminação nos centros de saúde; o acesso a atendimento, recepção e triagem; o atendimento de jovens e mulheres na luta contra o VIH / SIDA; a prevalência da taxa de infecção de mãe para filho; a disponibilidade de antirretrovirais (ARV), incluindo para prisioneiros. 38. De acordo com o Ministro, a redução orçamental foi consequência da revisão do orçamento nacional devido à actual situação económica, e isso afecta todos os ministérios. Por exemplo, o Ministério da Saúde teve que reduzir seu orçamento de 40%. Considerando que o país enfrentava uma situação de emergência com o surto de febre amarela e malária, o governo tem feito alguns esforços por meio da alocação de divisas estrangeiras ao Ministério. Indicou que esperava-se recuperar um bom nível de financiamento no futuro. 15
39. Como parte da expansão de instalações médicas em todo o país, um programa para construir novos hospitais foi implantado há 10 anos e as autoridades ainda estavam trabalhando para auxiliar enfermeiros e médicos nessas instalações. Médicos são treinados a nível nacional e alguns no exterior. Para atender a escassez de médicos e enfermeiros, Angola tinha celebrado acordos de cooperação com países como Cuba e Rússia. No entanto, o Ministro reconheceu a necessidade de prestar mais atenção à qualidade da formação porque a actual mobilização de pessoal médico em todo o país cobre apenas 71% das necessidades. O sistema de informações de saúde existente ainda precisa de melhorias. 40. A luta contra a mortalidade materna e infantil é uma prioridade para as autoridades assim como os esforços que devem ser feitos em termos de formação de pessoal. Além disso, uma pesquisa sobre a mortalidade materna e infantil de 2011 a 2012 está sendo finalizada. 41. Em relação à luta contra o VIH / SIDA, o acesso aos serviços de saúde e a assistência são garantidos a todos sem discriminação qualquer. O Boletim Nacional sobre VIH / SIDA discute a questão da discriminação e um Fórum de ONG da Sociedade Civil trabalha com o Governo para discutir questões relacionadas à discriminação na luta contra o VIH / SIDA a fim de fazer propostas concretas sobre as soluções adequadas para remediar a essa situação. O conteúdo da formação de médicos e pessoal de saúde foi revisto para melhor equipá-los sobre como combater o estigma e a discriminação. O mapeamento de populações-chave e a identificação dos grupos mais vulneráveis também está em andamento. 42. A taxa de prevalência de VIH / SIDA é ainda da ordem de 2,5% com base em uma investigação em curso sobre o sistema de avaliação da saúde. O ministro reconheceu que investimentos mais substanciais ainda são necessários, no campo da prevenção entre os jovens, através do programa dedicado a esse grupo. Um novo programa de luta contra o VIH / SIDA também deve ser lançado em breve. 43. Em relação ao protocolo de tratamento, foi feita à atenção da Angola uma recomendação de dar os ARV a todas as pessoas infectadas, ou seja, pessoas que são seropositivas e aquelas que já desenvolveram a doença, dependendo da disponibilidade de fundos. Para esse efeito, existem actualmente 500 centros que fornecem ARV. As duas principais áreas estratégicas que foram desenvolvidas foram a da prevenção da transmissão de mãe para filho, e o segundo componente foi a integração dessa nova função nos programas de formação dos enfermeiros. A prevalência de infecção de mãe para filho foi de 80%. No âmbito do programa de prevenção, a política era administrar o tratamento de prevenção a todas as mulheres grávidas sem distinção como parte do programa de prevenção. A recolha de dados relevantes ainda é um desafio, mas os dados 16
actualmente disponíveis mostram que a transmissão vertical (de mãe para filho) é de cerca de 25%. 44. Segundo ele, os presos têm acesso a testes de rastreio e preservativos estão disponíveis nas prisões. O Fundo Global de luta contra o VIH / SIDA apoia parte dos programas, enquanto 50% são financiados por doadores como o Banco Mundial. 45. Existe um programa específico para idosos e pessoas portadoras de deficiência, bem como um comité interministerial responsável pela situação social e médica dos veteranos de guerra, do qual o Ministério da Saúde é membro. Para os povos indígenas, o estado respeita seus direitos e suas culturas, mas não há um programa específico para eles. É através de programas de desenvolvimento que estes povos podem beneficiar de certos projectos específicos. 46. À questão de saber se Angola tinha desenvolvido programas para a promoção da medicina tradicional, incluindo tratamentos tradicionais comprovados, com vista a evitar as consequências negativas que podem resultar da falta de controlo sobre os programas por parte do Estado, no que diz respeito à luta contra o VIH / SIDA. O ministro respondeu que ele próprio era um terapeuta tradicional e que, embora o governo promovesse a medicina tradicional, ainda não havia controlo legal concreto. A promoção é feita através da pesquisa em farmacopeia. Os terapeutas tradicionais estão reunidos numa poderosa associação que visa construir um hospital de medicina tradicional. 47. O ministro declarou que a luta contra as práticas nocivas que têm impacto sobre a saúde das mulheres, como o casamento precoce, a gravidez precoce e a MGF, é da responsabilidade do Ministério da Família e da Promoção da Mulher. No entanto, o Ministério da Saúde também desempenha um papel importante nessa luta e participa de uma campanha de conscientização conjunta para pôr fim a essas práticas. 48. Segundo ele, o aborto medicinal só foi autorizado para salvar a vida da mulher e a conselho de um médico, e não por razões sociais. Planejou-se considerar a descriminalização do aborto em certas situações, como estupro, incesto, etc. No âmbito do projecto de revisão do Código Penal, discussões estão em curso sobre esse assunto. ENCONTRO COM A MINISTRA DA FAMÍLIA E PROMOÇÃO DAS MULHERES 49. A delegação foi recebida por Sua Excelência a Sra. Maria Filomena Lobão Telo Delgado, Ministra da Família e Promoção da Mulher e seus colaboradores. Os temas de interesse abordados foram os seguintes: as medidas existentes para combater a violência contra as mulheres, incluindo a violência sexual e doméstica; o impacto dos programas na erradicação desses tipos de violência, e as estatísticas disponíveis; as informações sobre os centros que lidam com casos de violência 17
contra as mulheres; as melhorias realizadas desde a Missão de 2010, com o objectivo de reforçá-las. 50. A delegação também se interessou pelas acções realizadas pelo Ministério em relação à promoção da saúde sexual e reprodutiva e à luta contra práticas nocivas, como o aborto inseguro, o casamento precoce e forçado, bem como os obstáculos encontrados na luta contra estas práticas nocivas e as medidas postas em prática para as remediar. 51. Foi abordada a questão da representação das mulheres nos órgãos de decisão, em especial as estratégias postas em prática para aumentar o seu número e a existência de uma lei de quotas relativa à presença das mulheres no Parlamento. 52. Outras questões de interesse foram discutidas, como as medidas existentes para garantir o acesso das mulheres à terra e, mais especificamente, para promover o acesso das mulheres rurais à terra, insumos, água potável e crédito, bem como a avaliação do respeito pela incorporação da perspectiva de género, nos programas de outros ministérios e nos desafios enfrentados. 53. A ministra fez primeiro uma breve apresentação das missões do seu ministério. Assim, segundo ela, tem dois ramos, um responsável pelas questões familiares e o outro responsável pelos direitos das mulheres. Sob esses dois ramos, existem vários departamentos. No que diz respeito aos programas, foram criados vários programas no âmbito do Programa Nacional para os Direitos da Mulher, que incluem a promoção das mulheres e a luta contra a violência contra as mulheres. Existe também um programa específico para mulheres rurais. 54. No que diz respeito à violência contra as mulheres, a Ministra reconheceu que este é um desafio real, mas que a Lei contra a Violência e o Plano de Acção têm sido de grande ajuda nos esforços para prazo para este problema. O Plano de Acção envolve a sociedade civil, vários departamentos, académicos e o Ministério da Justiça. É coordenado pelo Ministério da Família e também inclui o Ministério do Interior, de acordo com a gravidade dos casos que recebem. O Ministério mantém relações especiais com organizações da sociedade civil que trabalham com questões de género e algumas organizações políticas de mulheres. Os centros que lidam com casos de violência contra a mulher ainda existem e foram reforçados com a presença de conselheiros dentro deles. Também foram criados centros de acolhimento para mulheres em situações críticas. Além disso, uma linha verde para denúncia de casos de violência ou busca de ajuda foi aberta no ano anterior. 55. Declarou que a taxa de violência doméstica é bastante alta, especialmente dirigida às mulheres, e as causas são diversas. Tratam-se, entre outras, de disputas relativas a questões de divórcio, herança, cuidado infantil ou de negação da paternidade. O objectivo principal dos centros é fornecer conselhos às mulheres sobre o conhecimento dos seus direitos e apoiá-las em termos jurídicos. 18
56. Existe uma associação de mulheres advogadas que acompanha as vítimas no acesso à justiça e, quando o caso vai além de sua jurisdição, ela o submete à justiça, especialmente quando o caso está relacionado a um crime. A polícia também criou uma secção específica sobre a violência doméstica. Segundo ela, os estupros de raparigas e crianças pequenas têm aumentado claramente e estão, na maioria das vezes, cometidos dentro do núcleo familiar e, em muitos casos, são casos de incesto pelo pai. Esforços devem ser feitos no nível de prevenção e conscientização sobre esta questão. A este respeito, o Ministério desenvolveu um programa sobre habilidades familiares em parceria com a UNICEF, igrejas e a sociedade civil. 57. Uma associação de homens também foi criada para aumentar a conscientização sobre as várias questões mencionadas acima. Essa associação também interage com outros ministérios em várias questões-chave. A erradicação da violência é um dos objectivos do Plano de Acção 2013-2017 do Ministério e um orçamento específico foi alocado e apoiado pela UNICEF e outros parceiros. 58. O Ministério também tem programas diferentes para os jovens, particularmente na conscientização sobre a gravidez precoce. No âmbito da luta contra o casamento precoce, uma campanha nacional tinha sido organizada sob a coordenação do Ministério da Família em colaboração com outros ministérios, incluindo os Ministérios da Educação, Saúde, Juventude e a UNICEF. Existem também outros programas de sensibilização direccionados aos estudantes, alguns dos quais tratam da saúde reprodutiva e educação sexual. 59. Voltando à questão do aborto, ela disse que em Angola é considerado um crime. O aborto medicinal é praticado apenas com orientação médica e para salvar a vida da mãe, mas a questão do aborto medicinal será abordada, incluindo a questão da idade do casamento, durante a revisão do Código da Família e do Código Penal. 60. No âmbito das actividades realizadas durante o exercício de 2016, dedicado aos direitos humanos, o ministério prevê organizar uma conferência dos Ministérios do Género antes da Cimeira dos Chefes de Estado da União Africana e todas as recomendações desta conferência serão incluídas nos seus vários programas em curso. 61. A situação das mulheres rurais que constituem uma das populações mais vulneráveise, ao mesmo tempo, uma das populações-chave que tem o pesado fardo de fornecer alimentos e garantir a segurança alimentar, tornou-se uma prioridade em Angola. Assim, a fim de modernizar a vida das mulheres rurais, o Ministério organizou um Fórum Nacional de Mulheres Rurais em 2014, que lhes deu a oportunidade de conhecer as suas preocupações e as suas necessidades. Mais de 80% das mulheres rurais foram consultadas e 200 mulheres participaram no Fórum, 53 recomendações foram formuladas sobre direitos sociais, 19
económicos e culturais, cidadania, treinamento e reforço de capacidades, etc. Foi posto em prática um Plano de Acção Nacional para a implementação dessas recomendações. O Fórum Nacional de Mulheres Rurais é organizado a cada dois anos e uma avaliação da implementação das recomendações será realizada. 62. O Departamento avalia seus vários programas e resultados, bem como suas necessidades, para melhor atender aos objectivos que lhe foram atribuídos. Após as avaliações, foi feito um pedido ao Ministério das Finanças para obter apoio financeiro adequado. No entanto, esse pedido ainda não foi atendido, mas o orçamento actual permanece insuficiente para garantir a implementação total de todos os programas. 63. Existem pontos focais do Ministério da Família encarregados de monitorar a integração do género nas políticas e nos programas nacionais, em cada Ministério. Seminários sobre questões de género são organizados para o pessoal destes ministérios. A implementação do programa de género é feita em coordenação com outros departamentos. Existe um programa em fase de execução para as mulheres que trabalham no sector informal em colaboração com o Ministério do Comércio e o Ministério da Economia para transformar o sector informal e o empoderamento das mulheres. Este programa tem um componente educacional e as mulheres receberam treinamento do Instituto Nacional de Microcrédito. Existe também um programa de alfabetização que acompanha o Ministério da Integração Social, que tem por missão de criar creches para que as mulheres possam realizar as suas actividades económicas. 64. Com relação à redução da mortalidade e morbidade materna e infantil, as parteiras tradicionais foram treinadas para tratar melhor as mulheres rurais. Essa formação foi organizada pelo Ministério da Saúde, que lhes deu kits médicos sobre a sensibilização das mulheres sobre a importância da consulta pré-natal. 65. Em relação à representação das mulheres nos órgãos de decisão, houve uma melhoria desde 2010 e durante as eleições de 2012, a representação das mulheres aumentou; neste momento há 36% de mulheres no Parlamento, 22% no governo, 17% no corpo diplomático e 20% em governos locais. 10 a 13% das mulheres foram indicadas para cargos municipais. As empresas estatais também foram convidadas a nomear mulheres para cargos de gestão, e duas grandes empresas estatais têm uma directora executiva e, recentemente, uma mulher foi nomeada chefe de um banco de crédito. O Departamento está trabalhando para aumentar a representação de 30% para 50% para alcançar a paridade. Nas próximas eleições, o objectivo é chegar a 40%. No que diz respeito às mulheres que trabalham como empregadas domésticas, foi aprovada uma lei para protegê-las contra qualquer abuso. Isso foi uma grande luta. 66. O Ministério também implementou um programa de alívio da pobreza, com um componente que visa o reforço dos municípios e das comunidades locais para garantir o acesso aos serviços básicos (água, saúde) e outro que se concentra nas 20
áreas rurais. Existe um programa de nutrição com um orçamento separado que atravessa directamente os municípios para sua implementação. Outro programa visa as mulheres chefes de família, que receberam um apoio coordenado pelo Ministério do Comércio. 67. O acesso à terra é garantido para todos em Angola, e o Ministério da Agricultura, em colaboração com a FAO, a União Europeia e algumas ONG, desenvolveu um programa de apoio às mulheres rurais, através de um componente dedicado à obtenção de títulos de propriedade da terra para essas mulheres. ENCONTRO COM O PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL 68. Com o Presidente do Supremo Tribunal, Dr. Manuel Aragao, as discussões abordaram os seguintes temas: o trabalho do Tribunal, particularmente no que diz respeito ao tratamento de casos de direitos humanos, programas de treinamento para magistrados, e programas específicos para permitir a sua familiarização com os textos de direitos humanos e instrumentos jurídicos regionais e internacionais ratificados por Angola; as leis que prevêm a discriminação das mulheres ou de grupos marginalizados e medidas tomadas ou previstas para abordá-la; o papel do Supremo Tribunal no processo de reforma da lei; a representação de mulheres no judiciário e ao nível do Supremo Tribunal; bem como os temas tratados em conexão com os direitos humanos durante as sessões de inicio solenes dos tribunais. 69. Em resposta às perguntas da Delegação, o Presidente indicou que o Supremo Tribunal é a instância mais elevada dos tribunais e que devia ser estabelecido uma corte intermediária entre os Tribunais e o Supremo Tribunal, que abordará assuntos relacionados à legalidade, enquanto as relativas aos processos judiciais permaneceriam sob a responsabilidade do Supremo Tribunal. Também está prevista a criação de um tribunal em cada localidade, a fim de aproximar a justiça dos litigantes e garantir o seu acesso pela população local. 70. A representação de género é assegurada pela presença de muitas mulheres no sistema judiciário, particularmente em tribunais regionais e tribunais civis. No Supremo Tribunal, são 5 mulheres por cada 10 homens. 71. Quanto ao tratamento de casos de direitos humanos pelo Tribunal, segundo ele, o Tribunal tratou alguns casos, mas em menor escala, após o que a Delegação encorajou o Supremo Tribunal a fazer uso da jurisprudência da Comissão Africana relativa aos Direitos Humanos na sua tomada de decisão. A Delegação também recomendou que o Supremo Tribunal considerasse a inclusão de uma formação sobre o sistema regional e internacional de direitos humanos nos programas de estudo e de formação dos juízes. 72. Quanto à organização das sessões de inicio solenes dos tribunais sob temas relacionados com os direitos humanos, nenhuma foi organizada ainda, mas a justiça trabalha para o avanço do respeito dos direitos fundamentais das pessoas 21
e, portanto, do acesso à justiça. Assim, foi feita uma recomendação aos vários órgãos judiciais para que os casos sejam tratados de forma mais rápida. Uma avaliação do sistema judicial está em andamento para identificar as áreas que necessitam melhorias no âmbito das reformas. 73. Sobre a questão da prisão preventiva, indicou que uma avaliação de sua aplicação deveria ser feita para evitar abusos. Além disso, a libertação sob fiança é cada vez mais usada. A detenção preventiva só é necessária em caso de suspeita de vazamento por parte do detido. 74. Foram tomadas medidas para melhorar o sistema de assistência judiciária, particularmente para acessar o Supremo Tribunal. O apoio judiciário é gerido pela Ordem dos Advogados. As despesas de contencioso continuam a ser um motivo de preocupação para o Tribunal e o Governo. Com vista a atenuar esta situação, foi criado um programa chamado “defensor público”. 75. O Tribunal foi consultado no âmbito das reformas. A formação contínua dos magistrados é realizada através do Instituto Nacional de Estudos Judiciários, em coordenação com o Ministério da Justiça, e muitos tópicos relacionados com os direitos humanos estão contidos nos programas de formação. 76. Indicou que os textos de lei têm muitas disposições herdadas da lei colonial, mas a nova constituição permite que as partes invoquem as disposições de convenções internacionais ou regionais que foram ratificadas, mas ainda não incluídas na lei nacional, perante o juiz que poderá aplicá-las. 77. A difamação é sempre uma infracção, mas a Lei de Difamação está sendo discutida, e faz parte do conjunto de leis que deve ser revisto ou adoptado como parte da reforma da lei. A Delegação informou o Presidente de seu pedido de revogação de leis criminais sobre a difamação, e expressou o desejo de que o Supremo Tribunal faça uso da jurisprudência do Tribunal Africano no caso Konaté c. Burkina Faso4, que é uma decisão histórica para a protecção da liberdade de expressão. ENCONTRO COM O PROCURADOR GERAL 78. Durante a sua reunião com o Procurador Geral da República, o Dr. João Maria de Sousa, a delegação discutiu com ele os seguintes pontos: o funcionamento e Uma decisão histórica em Dezembro de 2014, o Tribunal Africano considerou que a detenção do Sr. Konaté por difamação violou o direito à liberdade de expressão de acordo com o Artigo 9. o da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, o Artigo 19. o do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Artigo 66 (2) (c) do Tratado da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Tratado da CEDEAO), ordenando que o Burkina Faso revise a sua lei de forma consistente com a Carta e pague uma compensação ao Sr. Konaté. O valor exacto da compensação devida ao Sr. Konaté foi diferido para uma segunda fase do processo.http://arcproject.co.uk/2016/06/the-africancourt-establishes-first-jurisprudence-on-the-freedom-of-expression-konate-v-burkina-faso/ 4 22
controlo da acção da Polícia Judiciária; as detenções nas esquadras de polícia; as unidades de género dentro da Polícia e sua colaboração com as secções sobre o combate à violência contra as mulheres; o envolvimento do Procurador-Geral no processo de registro de ONG e, em particular, na implementação da Lei de Registro de ONG de 2015. 79. O Procurador-Geral declarou que é assistido na execução das suas funções por dois assistentes, um dos quais estava encarregado pelo Tribunal Tribal Civil e outro pelo Tribunal Militar. A Justiça Militar tem um Supremo Tribunal e outros órgãos judiciais. Esses tribunais só lidam com crimes cometidos por soldados. No entanto, se um soldado cometer um crime no Tribunal Civil, será julgado pelo Tribunal Civil. O tribunal militar funciona como o tribunal civil, mas com juízes militares. O princípio do recurso existe e é admitido apenas no Tribunal Constitucional. 80. Existem 20 Procuradores-Gerais Adjuntos, incluindo 5 mulheres. Há também uma secção que lida com questões de direitos humanos dentro do Gabinete do Procurador-Geral desde 2007.O Gabinete do Procurador trata de casos de violência doméstica, de tráfico de seres humanos, e desaparecimentos forçados. O Gabinete do Procurador-Geral também é membro do comité de redação de relatórios. Abrange todos os tribunais em todo o país, tem 66 juízes em todos os tribunais em todas as categorias (criminal, trabalho e administração). 81. O papel do Procurador Geral no sistema judicial angolano consiste essencialmente em verificar a legalidade do processo judicial e o respeito das garantias judiciais por parte da polícia judiciária. Também desempenha o papel de defensor público durante os julgamentos. O Estado pode ser réu, como requerente. O Procurador-Geral representa crianças, grupos vulneráveise o interesse da Sociedade. Pode ser solicitado para dar um parecer sobre várias questões, como o processo de destituição do Presidente da República. Informa o presidente sobre casos de violações dos direitos humanos. 82. O Gabinete também está envolvido na organização de seminários para treinar magistrados, mas também funcionários de direitos humanos; 5 seminários foram organizados nos últimos dois anos e 4 magistrados viajaram para Israel para receber treinamento em direitos humanos. O Gabinete também recebe apoio do PNUD e da SADC para organizar seminários. Os direitos humanos também foram introduzidos no programa do Instituto Nacional da Magistratura. O Gabinete também possui um programa de treinamento para conscientizar os cidadãos sobre os seus direitos e as suas obrigações e sobre como recorrer à justiça. 83. Em todas as detenções policiais, há um representante do Procurador-Geral para garantir o respeito das garantias judiciais, e desde a adopção da Lei de Violência Doméstica que engloba todos os tipos de crimes relacionados à violência, a violência doméstica não é mais um crime privado e qualquer um pode denunciálo à justiça sem ser a vítima directa. A este respeito, existe um Tribunal especial 23
que trata dos casos de violência doméstica, no qual a protecção de testemunhas é garantida. 84. O Procurador Geral intervém no registo de ONG somente quando é solicitado para decidir sobre a legalidade do processo conduzido pelo Ministério da Justiça e Direitos Humanos, para verificar a conformidade de documentos e objectivos da ONG com a lei e dar um parecer jurídico sobre o motivo pelo qual uma ONG pode estar ou não autorizada a operar dentro do território angolano. Se a ONG não obtiver parecer legal favorável, pode solicitar ao Gabinete do Procurador Geral que decida sobre a conformidade legal do processo, dentro do prazo estabelecido, e também pode apresentar um novo pedido. ENCONTRO COM O PROVEDOR DE JUSTIÇA 85. A Delegação foi recebida pelo Provedor de Justiça, Sr. Paulo Tjipilika, com quem discutiu sobre as tarefas atribuídas ao Provedor, bem como sobre o escopo do seu mandato e das suas atribuições. A lei de amnistia e o envolvimento do Provedor na sua implementação também foram mencionados, bem como a existência de um quadro especial de intercâmbio com ONG, bem como a questão da ausência de uma CNDH em Angola. 86. O Sr. Tjipilika explicou que o Provedor de Justiça é eleito por 2/3 dos membros da Assembleia Nacional, por um mandato de 5 anos, renovável uma vez. Ele submete um relatório à Assembleia Nacional e ao Presidente da República a cada seis meses. Apresenta também um relatório financeiro e o seu orçamento, que deve ser aprovado pela Assembleia Nacional. O seu orçamento é constituído por 5% do orçamento mensal do Parlamento. 87. Em relação ao mandato e aos poderes do Provedor, recebe queixas e reclamações de todas as partes do país, e até por telefone, dos cidadãos sobre acções ilegais cometidas por certas administrações. Os serviços do Provedor de Justiça estão representados nas províncias. A maioria dos casos apresentados está relacionada a litígios sociais, detenções preventivas, etc. O Provedor de Justiça também visita as prisões para ter uma ideia das condições de aplicação das regras relativas à detenção preventiva, incluindo os prazos revistos pela lei. Refere-se no seu relatório às entidades administrativas que respondem aos seus pedidos e àquelas que não o fazem. Os prazos para responder às recomendações feitas pelo Provedor de Justiça também são especificados e isto para todas as entidades sem distinção. O relatório também menciona o estado da implementação das recomendações. Neste último ponto, indicou que a taxa de implementação ainda é baixa e ainda há muito a ser feito para melhorar a situação. Segundo ele, um dos desafios é o da sensibilização de certos indivíduos e entidades que não respondem às cartas e recomendações, bem como os desafios relacionados com os recursos financeiros e humanos conexos. 88. Sobre o envolvimento do Provedor na implementação da lei de amnistia, foi indicado que o Provedor estava envolvido no processo de execução durante as 24
visitas aos locais de detenção para assegurar que as condições e o tempo de detenção eram respeitados. 89. Quanto às relações com as ONG, foi indicado que elas podem se referir ao Provedor como qualquer outro cidadão e, no que diz respeito ao Decreto Presidencial de 2015 sobre o Registro de ONG, não tinha sido recebida nenhuma queixa para contestar o Decreto. 90. Na sequência das perguntas sobre as possíveis consequências para a sua independência de depender do orçamento do Parlamento, o Provedor de Justiça afirmou que a sua independência está bem estabelecida em relação ao executivo e ao Parlamento, em especial no que diz respeito às questões administrativas. Para reforçar seu argumento, ele citou o exemplo da Suécia, que tinha o mesmo sistema que a Angola. 91. Perguntou-se se há alguma estatística sobre as questões mais recorrentes nas denúncias (ilegalidade, não-conformidades, violações de direitos humanos) e também aquelas apresentadas por mulheres. Indicou que as estatísticas do ano passado mostraram que, de acordo com as categorias, a maioria das queixas das mulheres se referia a casos de abandono infantil e abandono do lar da família pelo cônjuge. Estas queixas são reencaminhadas para os Tribunais, mas o Gabinete do Provedor de Justiça continua a acompanhá-las, nomeadamente informando o Procurador sobre o andamento dos casos. 92. No que respeita a ausência de uma CNDH até hoje, explicou que Angola tinha feito a escolha de ter um Provedor de Justiça forte em vez de ter duas instituições, cujas missões seriam análogas. O Gabinete trabalha com ONG, o Ministério da Justiça que tem um Secretariado especial para a colaboração com o Provedor, que trabalha especificamente com o Provedor. A questão dos direitos humanos foi incluída no Protocolo de Lusaka5, enquanto o Provedor de Justiça ainda era um departamento do Ministério da Justiça, do qual foi posteriormente separado para se tornar uma instituição independente. O seu mandato é defender os direitos e liberdades dos cidadãos e isto está consagrado na Constituição. O Provedor de Justiça apoia a justiça através de meios não judiciários e da monitorização da legalidade das decisões judiciais, que é a base dos direitos humanos. ENCONTRO COM OS MEMBROS DO PRESIDIO DO PARLAMENTO E DA DÉCIMA COMISSÃO, DIREITOS HUMANOS, PETIÇÃO E OPINIÕES DO CIDADÃO 5 Assinado em Lusaka em 31 de Outubro de 1994, é um acordo para acabar com a guerra civil angolana integrando e desarmando a UNITA para iniciar um processo de reconciliação nacional. As duas partes no conflito assinaram um cessar-fogo suplementando o protocolo em 20 de Novembro do mesmo ano.https://pt.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Lusaka 25
93. A delegação teve uma sessão de trabalho com a Vice-Presidente da Assembleia Nacional, a Ilustre Joana Lina Ramos Baptista, acompanhada pelo Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Nacional, o Presidente dos Negócios Estrangeiros e da Comunidade Angolana no estrangeiro, o VicePresidente dos Negócios Estrangeiros e o Director do Gabinete do Presidente da Assembleia Nacional. As discussões abordaram o papel da Assembleia Nacional, particularmente na ratificação de textos regionais e internacionais sobre direitos humanos, mas também o papel que desempenha na implementação das recomendações feitas pela Comissão, particularmente após a apresentação do relatório periódico em 2012, e as relativas à Revisão Periódica Universal. 94. Também foram abordados os seguintes temas: a representação das mulheres no Parlamento, segundo se pertencem à maioria ou a oposição; as medidas em vigor para incentivar os partidos políticos a apresentar mais mulheres para futuras eleições; a existência de redes no parlamento para discutir questões como a violência contra as mulheres; o quadro de intercâmbio com as ONG; assim como os desafios enfrentados pelos parlamentares na adopção de leis. 95. Em resposta às perguntas, a Vice-Presidente indicou que, no que diz respeito à ratificação, o Governo apresenta as propostas à Assembleia Nacional, que antes de as ratificar, as submete à consideração pela Comissão encarregada desta questão, que as apresenta ao Plenário. Na sua abordagem, a Assembleia Nacional deve dar prioridade ao que é relevante para o país. Quando os documentos não estiverem disponíveis em português, os parlamentares devem aguardar a tradução oficial antes de poder proceder ao seu exame. O Parlamento aprovou leis muito importantes, tais como leis relativas à criação de um centro para a resolução de conflitos, a lei relativa aos requerentes de asilo, a lei de amnistia, a lei de reconciliação, a lei da Ordem dos advogados, e a lei de financiamento de partidos políticos. O projecto de revisão do Código Penal já foi submetido à Comissão competente, e também deverá ser submetido aos presidentes dos grupos parlamentares e em seguida ser discutido em sessão plenária antes da sua adopção. . 96. No que diz respeito à representação das mulheres, existe uma lei sobre a igualdade que estipula que de 15% a 18% dos assentos na Assembleia Nacional são ocupados por mulheres, mas isso não resolve os problemas que as mulheres enfrentam; dos 228 assentos da Assembleia Nacional, 139 são ocupados por homens e 81 por mulheres. 97. Como o sistema eleitoral é baseado no escrutínio por listas, as mulheres devem estar na lista de partidos políticos a serem eleitos e cada partido político deve ter 30% de mulheres. O objectivo é chegar aos 45% até às próximas eleições, e o facto de ter uma lei específica não resolverá esse problema, dado o método de votação. As mulheres parlamentares de todas as formações políticas fazem parte de diferentes grupos, no entanto, não existem redes específicas. 26
98. O Parlamento mantém boas relações com o executivo com quem trabalha em conformidade com o quadro estabelecido. Existem desafios, especialmente na adopção de novas leis, e na sequência da adopção da nova Constituição de 2010, há muito trabalho para colocar toda a estrutura legislativa em conformidade com a Constituição. Assim, existem 44 a 45 leis pendentes a nível do Parlamento. 99. Os debates da Assembleia Nacional não são transmitidos pela televisão e isto é uma fonte de desacordo entre a oposição e a maioria, mas estão em curso discussões sobre este assunto. No entanto, os cidadãos podem consultar as declarações políticas de todos os partidos políticos transmitidas pela televisão e a apresentação do orçamento do Estado também está disponível. Caso contrário, o Parlamento organiza um programa semanal na televisão. Há também a revista do Parlamento, mas sua publicação não é regular. A Biblioteca do Parlamento também está aberta ao público. ENCONTRO COM O MINISTRO DO INTERIOR 100. A delegação foi recebida por Sua Excelência o Ministro do Interior, Dr. Angelo Tavares, acompanhado por seus colaboradores, nomeadamente, o ComandanteGeral da Polícia, o Director Geral Adjunto dos Serviços de Imigração, o Director Geral Adjunto do Serviço de Investigação Criminal; o Director de Comunicação Institucional, o Director de Cooperação com o Ministério do Interior, o Director de Polícia, o Director Adjunto dos Assuntos Criminais e Penais, o Director de Serviços Prisionais e o Director da Imigração. 101. Os temas abordados estavam relacionados com as áreas de intervenção da polícia judiciária, bem como as medidas tomadas para garantir o respeito pelos direitos humanos durante a investigação preliminar; a presença de um advogado durante a investigação preliminar; casos de tortura e as medidas tomadas contra os agentes que cometeram tais actos; a protecção de pessoas vulneráveis, como as mulheres vitimas de violência doméstica e as vítimas do tráfico de pessoas; o procedimento para controlar os locais de detenção, se isso era feito sob o controlo do Ministério Público ou se havia outro mecanismo; uma estrutura formal de câmbio entre a polícia e a justiça para discutir os desafios que encontravam os dois serviços na implementação de seus respectivos mandatos; bem como a integração dos direitos humanos nos módulos de formação dos funcionários de polícia. 102. Outras questões abordadas incluíam estatísticas sobre as mulheres que ocupam altos cargos no Ministério; a taxa de criminalidade e os tipos de crimes predominantes em Angola; a situação da tortura nos termos da lei nacional, particularmente se era considerada crime; o procedimento que permite aos cidadãos de apresentar queixas relativas à brutalidade policial, bem como a frequência das detenções de jornalistas e defensores dos direitos humanos. 103. O Ministro declarou que o Ministério estava encarregado pela administração das prisões, a reintegração de prisioneiros, a investigação criminal, as questões de 27
imigração, a protecção civil e o serviço de brigada livre. Em relação à representação das mulheres no Ministério, ele disse que estas eram muitas na Polícia Nacional onde ocupavam vários cargos de responsabilidade. 104. Segundo ele, a taxa de criminalidade nas províncias não é elevada, mas representa todavia uma preocupação em Luanda, onde a taxa foi mais alta; e com a circulação de armas, como resultado da guerra, alguns crimes foram cometidos com armas. Há também casos de estupro ocorrendo dentro das famílias, assim como casos de violência doméstica, que felizmente estão diminuindo com a implementação da Lei de violência doméstica. Os casos de roubos de automóveis são mais frequentes em Luanda. 105. Sobre a situação dos refugiados e requerentes de asilo no país, a Delegação perguntou se eles estavam integrados na população ou residiam em campos de refugiados? Além disso, a delegação recebeu a informação de que 40% da população não possuía um documento de identificação. Assim, a delegação desejava confirmar essa informação e, se necessário, conhecer as medidas postas em prática para remediar a esta situação, em particular tendo em vista a participação dos cidadãos nas próximas eleições. 106. Sobre a questão dos refugiados, o ministro disse que Angola acolheu 16100 refugiados da RDC, Mauritânia, Somália, Chade, Libéria, Ruanda e Etiópia. No que diz respeito aos refugiados da Libéria e do Ruanda, que foram considerados refugiados durante muito tempo, estão em curso discussões com o ACNUR e os países de origem com vista a assinar a cessação do seu estatuto de refugiados. Em relação à imigração, o Estado enfrenta uma onda de imigração ilegal, a maior parte dos migrantes sendo migrantes económicos. 107. Segundo ele, os documentos de identificação são emitidos pelo Ministério da Justiça, que tem um programa para permitir que todos os angolanos obtenham o seu bilhete de identidade o mais rapidamente possível. O processo foi atrasado devido a alguns problemas técnicos que foram posteriormente resolvidos. Por outro lado, o Estado tinha implementado outras medidas para facilitar a emissão de bilhetes de identidade, incluindo facilidades financeiras. 108. O Ministro afirmou que, no que diz respeito à formação dos funcionários de polícia, eles são treinados no seu próprio centro e os direitos humanos são incluídos nos currículos. Existe uma cooperação entre o Ministério, agências das NU e algumas ONG para treiná-los sobre o tema dos direitos humanos, especialmente a tortura. A questão da tortura é tratada de acordo com as disposições dos instrumentos internacionais e é considerada como um crime. 109. Segundo ele, os cidadãos podem denunciar a violência policial ao Tribunal, remetendo-o ao superior hierárquico do funcionário interessado ou ao Ministério do Interior, ou podem ser apresentadas queixas. O Provedor de Justiça, a 28
Assembleia Nacional, que tem uma Comissão para o efeito, recebem também queixas. Existe um decreto que apresenta as medidas disciplinares para todas as questões relativas à violência policial. Assim, no decorrer de 2015, houve 700 sanções contra funcionários de polícia, e 79 deles foram demitidos. Existe também um número de telefone gratuito que os cidadãos podem usar para denunciar tais actos. O Ministério trabalha com outros ministérios, incluindo a Ordem dos Advogados, para discutir várias questões. ENCONTRO COM O MINISTRO DA EDUCAÇÃO 110. As discussões com o Ministro da Educação, Sua Excelência o Sr. Mpinda Simão, abordaram os seguintes assuntos: O estado geral da educação em Angola; o orçamento destinado à educação; a inclusão dos direitos humanos nos currículos escolares; o lugar do ensino do sistema africano de direitos humanos nos programas; os esforços voltados para o acesso dos povos indígenas à educação, especialmente se beneficiavam de programas específicos para manter as crianças indígenas na escola; as medidas adoptadas para promover a aprendizagem de línguas nacionais; as relações do ministério com o sistema privado, particularmente no que diz respeito ao controlo do conteúdo do ensino privado; as medidas existentes para facilitar o acesso das crianças portadoras de deficiência à escola; os programas de alfabetização de adultos: cantinas escolares; e qual era a política de acompanhamento das raparigas grávidas na escola. 111. Em relação ao estado geral da educação, o ministro disse que em 2012 a taxa de alfabetização foi de 67% e em 2014-2015, houve mais de um milhão e duzentas pessoas que seguiram um currículo escolar. Segundo ele, isto é o resultado das campanhas de conscientização sobre a importância da educação. Espera-se alcançar uma taxa de 80% no futuro e, se o país mantém os seus esforços, poderá acabar com o analfabetismo em 5 a 6 anos. 112. A educação é obrigatória e gratuita e isso está consagrado em várias leis. Há quase 8 milhões de pessoas educadas, enquanto em 2012 havia apenas 7 milhões. No nível universitário, a tendência do governo é reduzir o número de pessoas não educadas. O país fez um enorme progresso na educação e está se concentrando mais na qualidade da educação do que na quantidade. No entanto, ainda há muitos desafios, incluindo na área da melhoria da qualidade das infraestruturas, da inspecção e do controlo, bem como do nível dos professores. A universidade precisa desenvolver novos programas de treinamento para garantir que a educação seja de melhor qualidade. Este objectivo deveria ser alcançado dentro de 2 anos e, para atingi-lo, foi previsto melhorar as condições de trabalho dos professores, institutos de formação de professores e desenvolver a educação noutras regiões. Assim, foi previsto manter as medidas de discriminação positiva com vistas a aumentar a presença de estabelecimentos escolares nas regiões mais remotas do país. O objectivo era educar todas as crianças em todo o país, no âmbito da luta contra o analfabetismo. Foram criados programas denominados "áreas de influência pedagógica", que consistem em implementar as 29
melhores estratégias e soluções adequadas, para responder a um determinado problema no campo educacional. 113. O Ministro acrescentou que a crise económica teve um impacto no orçamento da educação, que foi consideravelmente reduzido ao longo dos anos; em 2016 foi reduzido para 6%, enquanto há dois anos era de 8%. Com relação à integração dos direitos humanos no currículo, uma parceria foi iniciada com sua contraparte na Namíbia para desenvolver ferramentas educacionais para integrar os direitos humanos no sistema educacional. Mas já existe alguma forma de educação em direitos humanos nos programas actuais que ensinam a tolerância, a promoção e o respeito pelos valores, o respeito pelos outros e assim por diante. Há também uma parceria com a UNESCO para desenvolver materiais educacionais e aumentar no ensino o número de professores que podem ensinar sobre questões de direitos humanos. 114. Segundo ele, as línguas ensinadas e utilizadas no ensino são o português, o francês, o inglês e outras línguas locais. No entanto, se na capital, praticamente todo o mundo fala português, nas províncias a prioridade é dada às línguas locais e isso tem impacto no aprendizado das crianças que precisam aprender numa língua que não dominam, e isso pode conduzir ao abandono escolar. É em resposta a este problema que algumas línguas locais foram introduzidas como línguas de aprendizagem desde o primeiro ano e existem ferramentas de aprendizagem em pelo menos 6 idiomas locais. Mas muito poucos professores têm competência para ensinar nas línguas locais enquanto existe uma necessidade real nessa área. Não há programas de treinamento específicos para adultos, mas existem programas de alfabetização em andamento. 115. No que diz respeito ao controlo dos currículos e do conteúdo dos programas de formação das escolas privadas, isso é feito pelo Ministério da Educação, que também é responsável pela emissão de credenciamentos para a criação de escolas particulares. Este credenciamento é válido por 5 anos e só pode ser renovado após uma avaliação satisfatória realizada pelo Ministério. Em caso de irregularidade, o Ministério pode tomar medidas contra o estabelecimento infractor. 116. Um programa de nutrição foi criado nas escolas para as crianças das camadas vulneráveis, o que teve um impacto positivo na presença de crianças na escola. Existe outro programa que visa fornecer um serviço de transporte escolar para as crianças. Segundo ele, uma das causas do abandono escolar, particularmente nas áreas rurais, é a distância entre a escola e o local de residência das crianças; algumas crianças devem andar 10 km para chegar lá. O Ministério dos Transportes prevê a compra de 1.500 autocarros escolares que serão disponibilizados para escolas e comunidades locais. 117. A taxa de matrícula de crianças indígenas é muito baixa; duas estratégias tinham sido postas em prática, uma das quais consistia na sedentarização das 30
populações, a fim de dar-lhes educação adequada, e a outra para fornecer-lhes professores itinerantes que se deslocam com elas. Além disso, a fim de melhor atender as necessidades das crianças indígenas, um programa específico foi implementado e uma avaliação está em andamento com o apoio do UNICEF para identificar suas necessidades e adaptar o programa conformemente. No que diz respeito às crianças portadoras de deficiência, foram criadas escolas especiais. Mas a política do Ministério era de incluí-las no sistema geral de educação geral, treinando professores aptos para responder às suas necessidades específicas. Existem cerca de 28 mil crianças portadoras de deficiência frequentando a escola, das quais 3 estão actualmente em pós-graduação (doutoramento) em Cuba. O Ministério também produziu materiais educativos em Braille. No que diz respeito à manutenção das raparigas grávidas na escola, elas deixaram de ser excluídas após a adopção de uma lei protegendo-as. No entanto, existe uma colaboração com o Ministério da Saúde para os seus cuidados. ENCONTRO NO MINISTÉRIO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL 118. A Delegação teve uma sessão de trabalho com o Secretário de Estado do Ministério da Comunicação Social, o Sr. Manuel da Conceição, acompanhado pelo Director Nacional de Informação, de um representante do Gabinete de Assuntos Nacionais do Estado para o informação e de um consultor jurídico, para discutir a situação da implementação da Lei de Acesso à Informação em Angola e para conhecer o estado da liberdade de expressão, incluindo o conteúdo da lei de difamação, que permite ao Estado de processar um jornalista. 119. A delegação também estava interessada em conhecer o andamento do processo de revisão das leis de liberdade de expressão, acesso à informação e outras leis de média, especialmente se elas já estavam no nível do Parlamento. Também foram discutidos outros assuntos, no que diz respeito à informação sobre a existência de rádios comunitárias, o financiamento dos média pelo Estado, a presença de mulheres nos média, assim como a existência de um órgão regulador para a imprensa, e seu papel no respeito da ética. 120. Em resposta, o Secretario de Estado indicou que a República de Angola tem legislação que permite o acesso à informação e outra que organiza a liberdade de imprensa. A lei de acesso à informação não se enquadra no Ministério da Comunicação Social, mas sim nos Ministérios da Justiça, do Interior e da Educação, de acordo com a natureza da informação solicitada pelo cidadão. No que diz respeito ao acesso à informação, existem várias leis sobre a informação (radiodifusão, média, etc.) e a imprensa escrita. 121. O Projecto de Reforma da Lei de Informação e de Imprensa consiste num conjunto de leis que inclui uma nova Lei de Imprensa, uma Lei de Transmissão, uma Lei sobre a Regulamentação da Imprensa e uma Lei sobre o estatuto do jornalista. Esses projectos de lei dizem respeito à radiodifusão, à televisão, à imprensa independente e a um órgão regulador para regular as atividades dos 31
profissionais de imprensa, a fim de atender às necessidades dos jornalistas e aprimorar seu trabalho. O pacote legislativo que contém estas leis está em discussão ao nível do Parlamento. Como parte do processo de revisão de leis, realizou-se uma ampla consulta nacional sobre a descriminalização da difamação. Com a revisão do Código Penal, a difamação deixará de estar sob a alçada da Lei de Imprensa, mas incluída no Código Penal. Assim, se um jornalista for culpado de difamação, será sancionado com base nas disposições do Código Penal. 122. As Constituições anteriores em Angola sempre garantiram a liberdade de expressão aos seus cidadãos. O estado concede credenciamento a jornalistas sem restrição e há cerca de 201 jornais (imprensa escrita), 431 revistas, 159 boletins de notícias, 15 empresas de produção de média, 2 canais de TV incluindo televisão nacional que cobre 85% do território e do canal de televisão Zimbo, cuja cobertura é de cerca de 70% do território. Existem também 5 plataformas de distribuição de cabos, como DSTV, Canal Plus, etc. Em relação às estações de rádio, existem cerca de 21 estações de rádio FM, incluindo três estações de rádio confessionais e uma estação de rádio universitária que abrange todas as províncias, e uma estação de rádio pública com 18 estações em todo o país. Há também 4 estações de rádio regionais e o estado possui 4 jornais em diferentes áreas (notícias, desporto, economia e finanças e cultura). 123. O financiamento da imprensa é feito através da lei sobre o financiamento das empresas, que contém disposições específicas que regulam o apoio aos grupos de comunicação. Existe uma entidade reguladora que também faz parte do Pacote Legislativo. Padrões de deontologia e éticos serão adoptados pelos próprios jornalistas e não serão impostos pelo Estado. A entidade reguladora será responsável apenas pela implementação desses padrões. As mulheres estão razoavelmente bem representadas na imprensa e até em cargos superiores. O Ministério prevê criar 14 estações de rádio comunitárias, das quais 4 já são operacionais. 124. Desde 2005, existem cinco associações de jornalistas que são, o Sindicato de Jornalistas, de mulheres jornalistas, de jornalistas económicos, de publicações de notícias e uma associação regional de média. SESSÃO DE TRABALHO COM O PNUD 125. Com o Representante do PNUD, Sr. Paulo Baladelli, a Delegação trocou informações sobre a missão do PNUD em Angola, particularmente a monitorização e implementação dos direitos humanos através de vários programas, incluindo o apoio à coordenação e preparação de relatórios para órgãos dos tratados das Nações Unidas. 126. Segundo ele, o PNUD trabalha em vários programas, incluindo um programa sobre o acesso à justiça e aos direitos humanos. Também trabalha sobre a questão dos migrantes em parceria com o Ministério do Interior sobre a imigração ilegal; o Governo tem a vontade política, mas ainda há muito a ser feito. Os migrantes e 32
requerentes de asilo representam um verdadeiro desafio para Angola, que começa apenas a experimentar esse fenómeno, e precisa de apoio nesse sentido. 127. Declarou que, juntamente com o FNUAP e outras agências das Nações Unidas, eles apoiam a capacitação e também trabalham na área da justiça juvenil, uma vez que a população angolana era muito nova. A promoção dos direitos das mulheres também é uma das suas prioridades e acabaram de concluir uma campanha contra a violência doméstica. Outros programas envolvem a saúde reprodutiva, mas este é mais o domínio de acção do FNUAP. 128. No que diz respeito aos direitos sociais, económicos e culturais, eles constituem um dos campos de interesse no qual acompanham o Governo na criação de um programa de protecção social. Segundo ele, o não cumprimento das necessidades socioeconómicas tem alguma influência no aumento dos crimes e merecem atenção especial do estado. Outra questão crucial é a da propriedade da terra, a maioria das pessoas não possui o título de suas terras e isso é problemático, especialmente quando o governo está conduzindo um projeto de desenvolvimento. As Nações Unidas trabalharam com o estado para regular o sector. 129. Outro desafio é a realização dos direitos civis e políticos. Ainda havia um processo de construção da democracia e a tolerância política ainda precisava ser aprendida por todos. Havia também uma necessidade de educação nesta área, especialmente junto das comunidades, mas também para com a polícia. 130. O PNUD apoia algumas ONG que trabalham em temas específicos, particularmente em áreas onde a agência executava directamente seus programas, mas os financiamentos tiveram que ser reduzidos porque o país é considerado um país intermediário. VISITA AO INSTITUTO NACIONAL DE LUTA CONTRA O SIDA 131. Com a Directora Geral do Instituto Nacional de luta contra o SIDA, Senhora Maria Lúcia Furtado, as discussões abordaram os seguintes temas: as missões do Instituto, os programas de prevenção, o acompanhamento do tratamento e as medidas legislativas tomadas para assumir pacientes com VIH / SIDA, particularmente no que diz respeito ao estigma e discriminação. 132. Indicou ainda que o Instituto foi criado por decreto presidencial para responder aos desafios do VIH / SIDA, sob a direcção do Ministério da Saúde, responsável pela planificação, implementação, coordenação e avaliação de programas a nível nacional, e que em colaboração com o Ministério da Saúde, o Instituto realiza acções de prevenção, detecção e tratamento. Ele tem um laboratório onde os testes são realizados. Várias campanhas foram organizadas e meios de comunicação e documentação foram desenvolvidos para informar e sensibilizar a população sobre os riscos do VIH/SIDA e como se proteger. . 33
133. A Directora informou que a prevalência do VIH/SIDA era de cerca de 2,5% e com vista a reduzir a transmissão vertical do VIH/SIDA, o Governo angolano implementou um Programa de Prevenção da Transmissão Vertical (PTV) como uma acção prioritária do Plano Nacional de Desenvolvimento 2013/2017. Este programa incluiu actividades para prevenir a transmissão vertical em fases importantes, incluindo gravidez, parto e amamentação. O programa concentra-se em três fases, que são a sensibilização de mulheres grávidas para testes rápidos, e o envolvimento de cônjuges, parceiros e membros da família que também precisam fazer testes. 134. Desde 2004, quando este programa começou, havia pouco menos de 7.000 mulheres grávidas seropositivas, enquanto pelo menos 19.000 mulheres grávidas vivem com a doença e 80% delas devem ser diagnosticadas e incluídas no programa PTV. Ela disse que Angola adoptou a estratégia de delegação de autoridade para permitir que as enfermeiras forneçam às mulheres grávidas seropositivas terapia anti-retroviral para aumentar seu acesso ao PTV. 135. No que diz respeito à luta contra o estigma e a discriminação, Angola adoptou em 2004 uma lei destinada a assegurar, entre outras coisas, a protecção e promoção integral da saúde das pessoas, através da adopção das medidas necessárias para a prevenção, controlo e tratamento e pesquisa sobre o VIH/SIDA. A lei também define os direitos e deveres das pessoas infectadas e do pessoal de saúde, bem como outros em situação de risco ou de contágio. A lei garante cuidados de saúde públicos gratuitos, e protege emprego, formação profissional e confidencialidade da informação. Criminaliza a transmissão fraudulenta do VIH, bem como a infecção de terceiros por descuido. VISITA DA PRISÃO DE VIANA 136. A delegação deslocou-se à prisão de Viana, onde foi recebida pelo superintendente Lucian Vicente, director da prisão. Os serviços prisionais controlam, a nível nacional, uma população carcerária estimada em 24.000 prisioneiros distribuídos nas 40 prisões existentes, incluindo a de Viana. A prisão recebe 4.000 detidos, incluindo 455 mulheres. Os jovens são detidos em prisões juvenis. 137. A prisão tem uma ala para homens, outra para mulheres, e a última é reservada à administração. A área dos homens era dividida em 4 blocos que hospedam os detidos de acordo com os tipos de crimes cometidos, um bloco de crimes violentos (assassinato), um por roubo, um por ofensa e um último com prisioneiros estrangeiros e aqueles que cometeram outros tipos de ofensas que não caem especificamente nas categorias acima. Havia um centro de saúde na prisão, mas para os casos mais graves são enviados para o hospital da prisão em São Paulo. 34
138. A Prisão oferece educação elementar ao ensino secundário, e também dispõe de um Centro Industrial, que treina os presos a actividades para facilitar a sua reinserção e integração na vida activa. 139. No distrito masculino, a delegação reuniu-se e discutiu com os detidos sobre as suas condições de detenção. Vários membros estavam interessados em saber o que a Comissão podia fazer para eles para que possam tirar proveito da lei de amnistia; a delegação explicou-lhes que a aplicação da lei estava sujeita a critérios definidos pela Justiça de Angola e que a Comissão não poderia intervir a menos que houvesse deficiências na sua aplicação, mas isso só poderia ser feito se fosse formalmente apreendido e a alegada violação caísse no âmbito da Carta Africana. 140. A ala de mulheres, que tem capacidade para 500 presos e inclui um centro de artesanato e uma creche onde os filhos das detidas podem ser mantidos até os três anos de idade. A delegação queria saber se os detidos estavam dispostos a seguir os programas de reintegração e reabilitação para sua reinserção na sociedade; especialmente com a abertura do centro industrial dentro da prisão. De facto, um dos desafios para as detidas era a rejeição de sua família, que começava assim que elas foram encarceradas. Portanto, é essencial que elas sejam preparadas face aos desafios que deveriam enfrentar uma vez livres. Segundo elas, algumas mulheres participam na formação oferecida pelo Centro Industrial e esperam que isso melhorasse. VISITA DO CENTRO INDUSTRIAL DA PRISÃO DE VIANA 141. A instalação do Centro Industrial faz parte do programa "Novo Momento, Novas Oportunidades". O Centro foi construído em parceria com a Zona Económica Especial (ZEE), e é uma indústria leve cujo objetivo é a reintegração e reabilitação dos detidos, mas também a auto-suficiência da prisão enquanto alimenta a cadeia logística do Ministério do Interior; o Centro pode acomodar 300 detidos e funciona com a ajuda de algumas empresas parceiras que oferecem diversos serviços envolvendo presos. 142. O centro inclui uma planta de processamento de alumínio, uma planta de processamento de madeira, uma oficina de costura, uma secção dedicada a produtos tecnológicos (computadores) e uma fábrica de produtos farmacêuticos como parte da parceria público-privada. 143. Durante a sua visita, a Delegação pôde observar a boa qualidade das instalações e o envolvimento dos detidos que lá trabalhavam. Algumas secções ainda não estavam totalmente operacionais; porque o Centro só abriu em março de 2016; no entanto, os primeiros resultados são encorajadores e propostos para uma boa preparação para uma reintegração bem-sucedida. VISITA AO HOSPITAL PENITENCIÁRIO DE SÃO PAULO 35
144. A delegação visitou o Hospital penitenciário de São Paulo, criado para atender à demanda e ao défice do sector carcerário em relação à assistência médica e farmacêutica. 145. O hospital recebe detidos que necessitam uma internação hospitalar: Possui diferentes áreas, incluindo a clínica e os serviços de enfermagem, primeiros socorros, salas de radiologia e cirurgia, laboratório e farmácia. Em 2013, foi aberto um centro de saúde para tratar prisioneiros que sofrem de doenças mentais. O hospital também possui seis consultórios para consultas externas e dois para emergências, além de uma área de internação para funcionários. A equipa é composta por 114 profissionais de saúde, 9 médicos, 10 psicólogos clínicos, 87 enfermeiros e 15 técnicos de diagnóstico terapêutico. ENCONTRO COM A SOCIEDADE CIVIL 146. A delegação discutiu com membros da sociedade civil, com quem trocaram pontos de vista sobre o seu trabalho, os desafios que enfrentaram nos seus respectivos campos de acção, bem como questões que mereciam mais atenção das autoridades. 147. As associações expressaram sua satisfação e gratidão às autoridades por permitirem a missão promocional, que lhes dá a oportunidade de interagir com os membros da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos. Expuseram as dificuldades encontradas na condução de suas atividades, particularmente no que diz respeito ao registo de ONG, desde a adoção do Decreto Presidencial que, de acordo com suas declarações, estava em contradição com a lei administrativa já existente. Para alguns, a falta de registo e a ausência de um documento formal constitui um obstáculo à obtenção do estatuto de observador junto da Comissão. Para outros, o confronto presidencial questiona sua própria existência porque de facto as torna ilegais. 148. Vários outros assuntos foram abordados, incluindo as expropriações em curso realizadas pelo estado no âmbito de projectos de desenvolvimento e o uso excessivo da força durante as operações este processo, resultando na morte de um rapaz de 14 anos, enquanto tentava proteger a casa da família da demolição. Estes casos de expropriação foram levados à justiça, mas na maior parte ainda não encontraram resoluções. A questão da propriedade da terra é bastante sensível em Angola, porque muito poucos possuem os títulos de propriedade de suas terras, o que tornava a compensação muito complicada em caso de expropriação. De facto, de acordo com a Lei de propriedade de Angola, 6as terras Lei de propriedade No. 9/04, adoptada em 9 de Novembro de 2004, que regula o acesso à terra. No entanto, os direitos de propriedade em vigor baseiam-se nas leis de terras coloniais, segundo as quais as terras não registadas e não cultivadas pertencem ao estado.http://www.fao.org/genderlandrightsdatabase/countryprofiles/listcountries/nationallegalframework/landlegislation/fr/?country_iso3=A GO 6 36
não registadas e não cultivadas pertencem ao estado. E muitos angolanos não possuem o título de propriedade devido em particular à ausência de um órgão real encarregado desta missão. Segundo eles, nas áreas rurais, comunidades inteiras também foram expropriadas de suas terras para atender às necessidades de desenvolvimento do estado. Finalmente, com a crise económica, a crise imobiliária também foi acentuada, e muitas pessoas não conseguiram mais ter moradia decente. 149. A questão da superpopulação carcerária também foi trazida à atenção da delegação, bem como os casos de tortura que tinham ocorrido dentro da prisão e tinham sido notificados às autoridades para acção. O declínio da liberdade de expressão e da imprensa e a violência política, que está claramente aumentando, particularmente no processo eleitoral. 150. Segundo eles, a situação das crianças de rua, cujo número aumentou consideravelmente como resultado da crise económica, e a questão do trabalho infantil, também eram preocupantes. Por outro lado, um grande número de crianças não possui estado civil. Problemas relativos à emissão de bilhetes de identidade também foram discutidos e foi apontado que os povos indígenas eram particularmente discriminados nessa área, uma vez que a grande maioria deles não possuía documentos de identificação. 151. Quanto ao acesso à saúde, apesar do número considerável de unidades de saúde, algumas comunidades ainda não possuem um centro de saúde, o que explica uma alta taxa de mortalidade materna e infantil. Além disso, os centros existentes nem sempre respondem adequadamente às necessidades reais das populações, particularmente no que diz respeito à qualidade dos cuidados prestados. Há também deficiências na protecção de mulheres vítimas de violência doméstica, porque apesar da existência da lei, as mulheres ainda enfrentam múltiplas ameaças e seus autores continuarão a escapar à justiça se medidas fortes não são implementadas pelas autoridades de acção penal. Os estupros dentro da unidade familiar também estavam aumentando constantemente e isso deveria ser levado em conta pelo sistema de justiça. 152. Os direitos das pessoas portadoras de deficiência são mais ou menos levados em conta; com a adopção da Lei de Acessibilidade, mas ela ainda não tinha sido proclamada e muitos pontos ainda precisam ser abordados, particularmente no que diz respeito ao acesso ao emprego. Havia 12 escolas para surdos em todo o país, que estão bem equipadas para acomodar alunos surdos e com deficiência auditiva, mas não há professores qualificados suficientes. A opção de incluir crianças portadoras de deficiência no sistema formal é uma boa iniciativa, mas o mesmo problema de qualificação dos professores continua a surgir. Isso resultou em vários abandonos escolares, deixando essas pessoas sem treinamento adequado para encontrar um emprego. Além disso, não há programação em linguagem de sinais suficiente na televisão nacional, o que contribui para o 37
sentimento de exclusão, particularmente no processo eleitoral. Esta informação foi apresentada por um activista surdo através de um tradutor. 153. No que diz respeito às questões ambientais, a Delegação foi informada da existência de uma maré negra que iria poluir as águas de Cabinda com um sério impacto na flora e fauna. 154. No que diz respeito às suas relações com as autoridades, algumas associações insistiram na importância de permitir que as autoridades trabalhassem antes de julgá-las. Para outras, foi necessário rever o seu modo de colaboração com o Estado, recorrendo a uma melhor estratégia de comunicação. Os progressos feitos pelo Estado também foram enfatizados. No entanto, deploraram a falta de implementação das recomendações feitas pelo Provedor de Justiça e também a falta de comunicação do Gabinete do Provedor de Justiça aos queixosos durante o exame da sua queixa. 38
TERCEIRA PARTE I. OBSERVAÇÕES E ANÁLISE DA SITUAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS EM ANGOLA 194. Esta parte do relatório apresenta as observações da Missão sobre a situação dos direitos humanos em Angola, com base nas informações dos vários intercâmbios e visitas das partes interessadas durante a missão. Essas observações são classificadas em aspectos positivos e negativos. Faz a análise da implementação das recomendações da missão anterior e formuladas de acordo com a consideração de relatórios periódicos cumulados (2.o, 3.o, 4.o e 5.o) da República de Angola, na 51.ª Sessão ordinária realizada de 18 Abril a 2 de Maio de 2012 em Banjul, na Gâmbia. 195. A Comissão congratula-se com os esforços do Governo angolano para cumprir as suas obrigações nos termos da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, em particular através da implementação das recomendações do relatório da missão de promoção de 2010 e das observações finais após a apresentação do seu Relatório Periódico combinado. 196. A Comissão observa o compromisso das autoridades com o bem-estar da população. A maior parte dos projectos em curso em 2010 foram concluídos e a cidade tem crescido consideravelmente. 197. No nível normativo em Angola, uma nova Constituição foi adotada em 2012 e, após isso, uma vasta reforma foi iniciada para adaptar as leis internas às novas disposições constitucionais. Embora ainda não tenha sido concluída, a vontade política declarada de levar essa reforma a cabo foi bastante encorajadora. Angola implementou a recomendação para ratificar a Convenção de Kampala e também tinha ratificado a Convenção contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes e seu Protocolo, e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas portadoras de Deficiência e seu protocolo facultativo. 198. Uma Lei contra a Violência Doméstica foi adoptada juntamente com outras medidas, planos de acção e estratégias, em parceria com ONG e agências das Nações Unidas para combater a violência baseada no género. Os centros de crise e assistência jurídica a mulheres vítimas de violência foram reforçados. Na área dos direitos socioeconómicos, houve progresso significativo na educação. O acesso à educação tem sido impulsionado pela adopção de várias medidas de acolhimento e apoio para crianças de grupos vulneráveis, crianças indígenas e crianças portadoras de deficiência. 39
199. Em termos de saúde, devemos observar a proliferação de estruturas de saúde, programas de treinamento para médicos e capacitação de paramédicos. 200. Uma lei de amnistia foi votada para resolver o problema da superlotação das prisões e esforços consideráveis foram feitos para reintegrar prisioneiros através de enquadramento e formação profissional para várias ocupações técnicas. . 201. No entanto , ainda há muito a ser feito sobre a liberdade de associação, particularmente no que diz respeito ao registo de ONG, o acesso de pessoas portadoras de deficiência ao emprego, a regulamentação do sector de terras, o problema das crianças de rua e o trabalho infantil. Medidas de acompanhamento para as vítimas de violência doméstica devem ser fortalecidas e o Estado deve mostrar maior firmeza na repressão ao estupro no interior das famílias, particularmente nos casos de incesto. A. EVOLUÇÃO POSITIVA No nível normativo 202. Os seguintes esforços foram observados: i. A vontade do Governo angolano de promover e reforçar a protecção dos direitos humanos através da ratificação de vários instrumentos jurídicos regionais e internacionais de direitos humanos; compreendendo: a) No nível regional - Ratificação da Convenção de Kampala (2012) b) No nível internacional - Ratificação da Convenção contra a Tortura e seu Protocolo (2013) - Ratificação da Convenção sobre pessoas portadoras de deficiência (2014) c) No nível nacional - A adopção da Lei de amnistia - A adopção da Lei de violência doméstica Administração da justiça O recrutamento de juízes, cujo número aumentou de 119 em 201 para 332 em 2016 − A existência de assistência judiciária e a protecção jurídica dos testemunhos; − Redução do uso de detenção preventiva em favor da libertação sob fiança; − Criação de secções específicas sobre violência doméstica dentro das esquadras de polícia; − A existência de um Tribunal especial que trata de casos de violência doméstica − O estabelecimento de uma linha verde para denunciar casos de violência doméstica; − A existência de um hospital penitenciário para melhor atendimento dos presos doentes; 40
− Abertura do Centro Industrial como parte da reintegração e reabilitação de prisioneiros na sociedade. Saúde - - A adopção da estratégia de delegação de autoridade para enfermeiros para fornecer terapia anti-retroviral a mulheres grávidas seropositivas para aumentar a prevenção da transmissão vertical (PTV); Administração de tratamento preventivo para todas as mulheres grávidas, como parte do programa de prevenção; A promoção da medicina tradicional A existência de acordos de cooperação com Cuba e Rússia para aliviar a escassez de médicos. A existência de programas específicos para a proteção de idosos, deficientes e veteranos de guerra. O treinamento de parteiras tradicionais e a distribuição de kits médicos em consultas de pré-natal. Educação - Integração dos direitos humanos no currículo e desenvolvimento de ferramentas educacionais para esse fim em parceria com o Ministério da Educação da Namíbia; - Introdução de línguas locais como línguas de aprendizagem do primeiro ano e ferramentas de aprendizagem em pelo menos 6 línguas locais; - Controlo do currículo e do conteúdo da formação nas escolas particulares pelo Ministério da Educação; - Estabelecimento de um programa de nutrição escolar para as crianças mais vulneráveis; - Estabelecimento de um serviço de transporte escolar para crianças, especialmente nas áreas rurais; - Formação de professores no cuidado de alunos portadores de deficiência como parte de sua inclusão no sistema geral de educação; - Produção de documentos educativos em Braile; - Manutenção das raparigas grávidas na escola após a adopção de uma lei protegendo-as. Mulheres − A implementação de um plano de acção sobre a erradicação da violência − A organização de campanhas nacionais contra práticas nocivas e denúncias de violência doméstica; − O estabelecimento de um plano de ação nacional para as mulheres rurais. A organização de um fórum bianual sobre as necessidades das mulheres rurais. − O estabelecimento de programas para o empoderamento das mulheres. A. ÁREAS DE PREOCUPAÇÃO 41
203. Apesar dos aspectos positivos acima mencionados, a delegação está preocupada com os muitos desafios identificados em diferentes áreas e que impedem a plena realização e gozo dos direitos humanos por parte dos angolanos, incluindo: No nível normativo No nível regional A Angola ainda não ratificou: − A Carta Africana sobre a Democracia, as Eleições e a Governação; − O Protocolo que Institui o Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos; No nível nacional - O não cumprimento de determinadas leis nacionais com as convenções regionais e internacionais ratificadas pelo país. − A lentidão na condução das reformas e na aprovação dos projetos de lei em tramitação na Assembleia Nacional e, em particular, no que diz respeito à revisão do Código da Família, do Código Penal e do Código Civil. − O impacto da lei no registro de ONG sobre seu funcionamento; − A penalização do aborto no Código Penal, apesar das consequências do aborto sobre a mortalidade materna; Administração da justiça - O problema da superlotação das prisões - A fraqueza das medidas e sanções tomadas contra os perpetradores de violência doméstica. Liberdade de expressão - Os abusos na implementação da liberdade de expressão, pelos profissionais da imprensa; - A persistência em penalizar a ofensa de difamação. Saúde - Orçamento inadequado alocado para a saúde - Restrições ao acesso ao aborto seguro; - A má qualidade dos cuidados prestados nos centros que não atendem às necessidades das populações; - A falta de controlo legal da medicina tradicional. Educação - Restrições orçamentárias; - A baixa taxa de matrícula de crianças indígenas; - A baixa proporção de professores qualificados para a educação de crianças portadoras de deficiência e na aprendizagem de línguas locais. Acesso à terra - Dificuldades na obtenção de títulos de propriedade 42
- A persistência de expropriações forçadas sem compensação O uso excessivo da força na condução das expropriações lideradas pelo Estado no contexto de projectos de desenvolvimento Mulheres - A baixa representação de mulheres nos órgãos de tomada de decisão, apesar dos progressos realizados; - A taxa elevada de violência doméstica; - A protecção insuficiente das mulheres contra a violência; - A persistência de práticas nocivas, como o casamento precoce e a mutilação genital feminina; - A inadequação do orçamento alocado ao Ministério para a Promoção da Mulher para cobrir as necessidades das mulheres; Crianças - O grande número de crianças que são vítimas de estupro e incesto, - O aumento do número de crianças que vivem nas ruas na sequência da crise económica; - O uso de trabalho infantil; - As dificuldades na obtenção de registros do estado civil; Pessoas portadoras de deficiência - A lentidão na promulgação da Lei de acessibilidade; - Ausência de medidas de acompanhamento para facilitar o acesso ao emprego para pessoas portadoras de deficiência; - A falta de professores qualificados para atender às necessidades de escolas com alunos portadores de deficiência, como as de surdos; - A fraqueza dos programas de linguagem de sinais na televisão; II. CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES 204. Apesar dos progressos significativos, muitos dos desafios permanecem e exigem a implementação de medidas apropriadas para garantir a protecção e a aplicação efectiva dos direitos humanos no país. É para esse fim que são feitas as seguintes recomendações às autoridades angolanas e seus parceiros. AO ESTADO PARTE No nível normativo No nível regional Tomar medidas para a ratificação dos seguintes instrumentos: − A Carta Africana sobre a Democracia, as Eleições e a Governação; − O Protocolo que Institui o Tribunal Africano dos Direitos Humanos e dos Povos, e a Declaração a que se refere no Artigo 34 (6); 43
No nível nacional − Assegurar o cumprimento das leis nacionais com as convenções regionais e internacionais ratificadas pelo país; − Assegurar que a implementação da Lei de Registo de ONG esteja em conformidade com os princípios sobre a Liberdade de associação e de reunião em África da Comissão da União Africana dos Direitos Humanos e dos Povos; − Acelerar o processo de revisão do Código Penal e do Código Civil, bem como o Código da Família. Administração da justiça - Construir novas prisões para resolver o problema da superlotação das prisões; Fortalecer as medidas contra os perpetradores de violência doméstica; Descriminalizar o aborto na revisão do Código Penal. Liberdade de expressão - Educar as pessoas e os profissionais da imprensa a fazer um bom uso da liberdade de expressão no respeito dos direitos de todos. - Descriminalizar o crime de difamação. Saúde - Garantir que o orçamento destinado à saúde seja substancial; Garantir o acesso ao aborto seguro para todas as mulheres; Melhorar a qualidade dos cuidados prestados nos centros de saúde, adaptando-os às necessidades reais da população; Estabelecer o controlo legal da medicina tradicional. Educação - Tomar medidas para fortalecer a escolarização das crianças indígenas; - Formar professores mais qualificados para a educação de pessoas portadoras de deficiência. Acesso à terra - Facilitar a obtenção de títulos de propriedade; - Abster-se de uso excessivo da força ao conduzir o processo de expropriação e assegurar que isso seja feito de acordo com a lei, com garantias de compensação ou realocação de pessoas expropriadas. Mulheres - Continuar os esforços para a plena representação das mulheres nos órgãos de tomada de decisão para alcançar a paridade; - Fortalecer as medidas de proteção para mulheres vítimas de violência doméstica contra seus torcionários; 44
- Acelerar a revisão do Código da Família para rever a idade do casamento e autorizar o aborto médico. Crianças - Tomar as medidas necessárias para assegurar a proteção das crianças vítimas de estupro e incesto, proporcionando-lhes assistência médica e psicológica adequada e condenando os perpetradores de acordo com as penalidades previstas na lei; - Adoptar medidas para remover as crianças de rua e garantir sua proteção e educação; - Supervisionar o trabalho infantil e garantir que aqueles que trabalham, o façam dentro do quadro previsto por lei. Pessoas portadoras de deficiência - Acelerar a promulgação da Lei de acessibilidade; - Implementar medidas de acompanhamento para facilitar o acesso ao emprego para pessoas portadoras de deficiência; - Treinar professores para atender às necessidades de escolas com alunos portadores de deficiência, como as de surdos; - Promover a linguagem de sinais através da televisão, fornecendo mais programação em linguagem de sinais, particularmente no que diz respeito a informações relacionadas à condução de assuntos públicos. ÀS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL −Continuar os esforços na protecção dos direitos humanos −Fortalecer suas capacidades para melhor cumprir sua missão −Privilegiar o diálogo com o governo ÀS AGÊNCIAS DO SISTEMA DAS NAÇÕES UNIDAS PNUD − Prosseguir e fortalecer a colaboração com o Governo e a sociedade civil através de vários projectos de desenvolvimento. Finalmente, a Comissão solicita ao Governo da República de Angola que assegure a implementação das recomendações acima mencionadas. 45

Created 6 de jul. de 2026 · Edited 6 de jul. de 2026